Amamentação

O leite, o ovo e as escolhas

Fevereiro_2013_Toronto:
O leite materno é o alimento mais completo da natureza, o segundo é o ovo. Nenhum deles pode ser copiado, por mais que se tente fortemente. Faltam seis dias para Luna completar quatro meses. Quatro meses crescendo à base de leite materno. Só faltam dois meses para completar o tempo exclusivo de aleitamento e já começam as papinhas.
Céus! E eu que pensava que seriam longos meses, esses primeiros. Passou voando! Ela não acorda mais de noite para mamar, dorme até dez horas direto. E eu devia estar feliz por poder dormir? Mas dá uma certa sensação estranha…e ao mesmo tempo boa, de fortalecimento, de saúde.
Afinal sempre ouvi falar que amamentar era um grande ato de amor, e só agora sei a razão, principalmente no começo, onde tudo pode complicar, onde ficamos mais sensíveis e surgem as mil idéias de fora, e as sugestões dadas pela indústria. Mas se puder, resista, persista mais um pouco e será agraciada com o mais completo vínculo afetivo com seu bebê, um elo que fará bem a ele e a ti.
Não é preciso listar todos os componentes do leite humano, nem compará-lo com o industrial para saber da diferença. Nem ficar dizendo que estudos tem comprovado que a composição química do cérebro infantil é afetada pelo tipo de alimentação e que foram observadas diferenças no desenvolvimento mental e motor de bebês amamentados e de bebês alimentados artificialmente. Tampouco argumentar que o desenvolvimento emocional do bebê está em jogo.
O google está ai para isso. E no fim, me dou conta que não são essas razões que fazem uma mulher querer amamentar ou não nos primeiros meses de vida do seu filho. São outras, bem mais variadas e complexas, de outras fontes e origens.

O caso é que quando estava grávida, certas coisas nem foram cogitadas como opção. Nem pensei no ato de amamentar, porque para mim ele já era o mais natural possível e tudo que é natural não precisa de força, se impõe com facilidade. De lá para cá, são muitas as decisões a serem tomadas. Dar ou não mamadeira? Dar ou não dar chupeta? Aliás, pacifier, em inglês. O que não fez de mim uma pacifista quando, de cara, afastei a idéia. (minha mãe, que me lê, deve lembrar das longas conversas que tivemos sobre choques geracionais no trato com o bebê)…Enfim, tenho tendência a pensar que ninguém vai tomar a decisão por mim e pelo pai da criança, claro. Não será o pediatra consultado sobre se devo ou não dar chupeta para o meu bebê, pois como disse minha parteira, “at the end of the day, the baby is yours“. Ou seja, podemos buscar toda informação possível, mas no fim teremos que decidir e não dá para colocar a escolha em costas alheias.

Desde que a Luna nasceu vou percebendo mais a responsabilidade pelas escolhas que faço. Agora não são só sobre mim que as consequências vão recair, serão também sobre ela. As teclas pintadas de verde que todos apertam com facilidade por aí não são as que mais me agradam. Gosto mais de pensar no valor agregado àquilo que escolhi. Praticidade, por exemplo, não é valor. Economia de tempo, também não.  Supressão de suposta dor, menos ainda. Crescer é viver escolhendo e nem sempre o caminho indicado como o mais curto ou indolor é necessariamente o melhor, pelo menos, não para mim. Basta pensar na experiência que mais te fez amadurecer na vida…pense nela…foi simples, rápida e indolor? Voltaria no tempo para não ter que vivê-la? Se não encararmos as mudanças nunca teremos o benefício que só elas trazem.
Mas nem foi para dizer tudo que escrevi que comecei a escrever. Meus dedos ganham vida própria quando abro esta caixinha do blog. Sou uma escrava da palavra que deseja existir. Minha intenção inicial era compartilhar o encanto e a beleza da passagem dos meses na vida de um recém-chegado ao mundo. Minha filha tem quase quatro meses, e já me ensinou tanto que me emociono só de pensar. Logo eu que tinha tanto receio da sensação de aprisionamento, de doação extrema. Logo eu que estava pronta para usar meu direito à liberdade. Como eu era bobinha, não sabia que algo se acende dentro do coração e não dá vontade de sair de perto da cria. Deve ser coisa da evolução da espécie. Fora que se doar ajuda a amadurecer e a entender a nova fase. Sua presença pecorrucha me fez perceber que não é preciso se privar de fazer muita coisa quando se tem um bebê em casa, mesmo sem  ajuda de babá (sequer a eletrônica), mãe ou qualquer terceiro.

Todo dia a gente acorda com uma dose extra de razão para acordar e uma super cobertura de amor. Todo o dia eu agradeço por ela ter aparecido por aqui. Nutrir esse bebê com meu leite e com meu afeto tem sido a mais doce experiência que já vivi. Lembro do primeiro dia que ela sorriu de verdade, do primeiro dia que ela segurou um objeto com as mãos, do primeiro dia que passou a seguir com os olhos, da primeira noite que dormiu direto, da primeira risada alta. Consigo diferenciar seus choros e vontades e confortá-la quando precisa de conforto. Cuidar traz sentido para existência, aumenta a produção de endorfina e os graus de felicidade. Vou parar porque estou parecendo uma pastora da maternidade. Aliás, faz parte da experiência uma certa inclinação para os excessos. E quanto a mim, para ser bem honesta, nunca quis uma vida pautada pelo balanço, equilíbrio e segurança. Gosto do caos, da bagunça dos extremos e da expectativa da surpresa. Tudo misturado com manhãs com cheiro de pão e café, música, humor e amor. Quanto à vida que cresce aqui dentro de casa, uma vida cheia de dobras, espero colher cada segundo, não perder nenhum momento deste primeiro ano misterioso e único. Lindo é nutrir e vê-la se transformar no ser mais fofo do universo.

Ps.: Se está grávida, coma ovo, todo dia!

FotoER_Luna e ovo.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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