Primeiros Meses

Agora tenho descendente!

Pai, mãe, avô, avó, até aí sabemos o nome de todos da nossa árvore genealógica. Destes galhos a gente extrai toda vivência e todo amor, seja por via real ou hereditária mesmo. Nossos ancestrais são imutáveis, são parte do que somos mesmo antes de termos nascido. Uma pena não termos acesso à biografia deles, ao que pensavam, como viviam e o que imaginavam do novo mundo. Uma geração planta as batatas, a outra colhe e a outra, infelizmente, vende a terra e nem sabe mais o que é plantar. Mas nem vamos entrar nessa história da perda quase total de habilidades tão humanas, tão essenciais, que antes eram ensinadas para criança pequena. E o que hoje ensinamos? Cozinhar, costurar, reformar objetos, observar a natureza para viver em harmonia com ela, plantar…nada disso parece ter muito valor.

E é exatamente esse monte de coisas sem valor de mercado que gostaria de ensinar para minha filha. Não vejo a hora de fazer pão junto com ela, bolo e escolher feijão. Quero mostrar na feira aquela quantidade linda e colorida de frutas e verduras, tocar e sentir a textura e o cheiro de todas elas. Quero deitar com ela na grama do parque embaixo de uma copa de árvore bem verde, para ela ver como é bom sentir a terra nas costas e o azul do céu no olhar, com uma moldura divina. Quero ter uma hortinha com tomatinhos para ela ver crescer. Quero contar histórias inventadas e ajudá-la a perceber o mundo ao redor.

No livro A Arte de Viajar, do Alain de Botton, ele conta uma história de infância, em que os pais o levavam pequeno, de férias, para paisagens naturais sublimes e o ajudavam a ver o amplo e o detalhe. Montanhas, praias e bichos, cidades e pessoas, obras divinas, obras dos homens. Ao invés de fotografar, ele aprendeu a desenhar o que via, pois desenhando a gente vê o que não via antes, pois precisa do detalhe, da sombra, da cor. E quando aprendemos a ver, nunca mais ficamos cegos. Ou melhor, ficamos sim. A arte de ver não é algo que se adquire para sempre e de uma só vez. Ela é treinada e deve ser laboriosamente mantida. Seria bom meditar todo dia, se avaliar para saber se algo de novo foi aprendindo e nada de velho foi esquecido.

Krishnamurti fala que meditar é se observar atentamente e operar as mudanças que precisam ser feitas. Só parando para se observar de maneira franca é que vamos conseguir ver o que o espelho não mostra. E daí que não estamos sozinhos nesta. Faz muitos séculos que mentes inquietas pensam sobre como o homem vive. E todos os ensinamentos estão a nosso dispor. Podemos construir uma árvore genealógica paralela à árvore real. Nela, a gente pendura todos os nomes de pessoas que admiramos, escritores, filósofos, cientistas, cozinheiros, homens e mulheres fortes, que fizeram da vida sua obra. Escolha-os. Seja lá quem for que te inspire e tenha te deixado bons conselhos…Pense neles, leia-os com frequência, olhe para eles, peça ajuda como pediria a um santo. No arquivo cósmico, todas as idéias gravitam sem parar. A minha árvore está pesada de bons nomes. É para eles que recorro quando as dúvidas e oscilações aplacam minha alma, e vou mostrar para Luna a obra e a vida de cada um deles. Quem sabe ela não se interessa e passa a pendurá-los na sua própria árvore?

E toda essa baita volta para dizer que fico divagando nas horas vagas sobre todas as coisas que quero dividir com minha pequena descendente. Sim! Agora virei ascendente de alguém. Bah, não tinha pensado nisso! Responsa, hein. E quem antecede tem, no mínimo, que fazer jus à ordem de nascimento. Sempre penso isso quando vejo os pais perguntando para crianças de 3 anos o que elas querem. Já reparou como isso acontece de maneira constante? O que tu quer filhinho? Mas gente, nem quando crescemos sabemos bem o que queremos, vai exigir que criança pequenina saiba! Essa pergunta geralmente é feita quando a criança tem fazer algo que deve fazer…e não importa muito se ela deseja fazer. Lembro do meu sogro falando: se fosse para ela decidir, ela teria nascido antes de ti. E não é?! Mas lá vai eu falar o que ainda nem vivi…

Acredito que não é por acaso que nascemos onde nascemos, esse fator é determinante para ser quem pretendemos ser. Se não foi por acaso que a Luna me escolheu como mãe, deve ser poque é de mim que ela precisa apreender coisas. Ela de mim e eu dela. Cada pai e cada mãe possui uma noção única  das coisas, possui ensinamentos, vivências e pontos de vista que ninguém mais pode transmitir, senão eles. Não quero por um minuto esquecer que minha missão não pode ser terceirizada, que não posso esperar que a escola, a vida, os amigos ou seja lá o que for a ensine, a ajude a viver melhor. De tudo que aprendi até aqui, é para ela que vou deixar. Se ela vai ser feliz com a bela herança intangível, ah isso eu não sei. Vai depender do quanto assimilar sobre o que é valor…e se ela demorar tempos para isso, mas um dia a ficha cair, nesse dia eu vou sorrir, onde quer que esteja.

Ps.: O mito do Campbel, as poesias simples e curtas do Mário Quintana, os belos insights do Eric Fromm, a ideologia do Che, arquétipos de Jung, a filosofia do Nietzsche, as obras de Sófocles, as histórias do Rubem Alves, as cartas do Sêneca, a crítica do Kurt Vonnegut, os fatos narrados por Fernando Morais, as letras de Noel Rosa e de Chico Buarque, a simplicidade de Cora Coralina, a tristeza de Florbela Espanca, o lirismo do Vinícius, a clareza do Eduardo Galeano, do Bertold Brech…tudo isso me ajuda a viver. Eles e outros estão pendurados na minha árvore de ancestrais escolhidos.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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