Amamentação Primeiros Meses

Amor de mãe é paz

Janeiro_2013_Toronto

Nesse momento, ela está pescando…quase pegando no sono no sling, com suas mãozinhas gordinhas no meu peito. Olho para baixo e vejo duas montanhas de bochechas, uma boquinha desenhada quase perdida embaixo de um nariz perfeitinho. Ela é…ela é…não sei dizer o grau de fofurice..melhor não definir, porque vai aumentar e daí ninguém vai me acusar de ter limitado seus níveis de queridice.

Ela tem dois meses, sorri quando acorda e berra de dor quando os gases insistem em tirar sua paz.  Não, eu ainda não dormi 3h seguidas desde que ela desabrochou neste mundo. E poderia ser confundida com a versão feminina do José Serra de tanta olheira que apresento atualmente.  As vezes, devo dizer, nem me importo. Outras vezes, quase enlouqueço.

Desde que ela nasceu, minhas enxaquecas quase sumiram, ou melhor, não. Apenas perderam a importância, o peso. Eu gosto quando ela berra para mamar, nas raras vezes que não percebo os movimentos e me antecipo a sua fome. Isso mesmo, filhota, quem não chora não mama…Gosto quando ela faz cocô! Isso não é ridículo? O que vou fazer se fico feliz de sentir aquele cheirinho de enxofre…é sinal que não haverá cólicas. E como amo dançar com ela no sling um sambão bem alto rolando na vitrola… e andar com ela no parque…e contar histórias sem sentido, e só faz dois meses. A casa não está tão de ponta cabeça como eu imaginava que ficaria. Nem minha vida…para ser bem honesta.

Quando eu andava no modo dois em um pela terra, com um pançón aparente, eu ouvi muita coisa de toda gente. Ouvi dizer que bebês davam uma trabalheira enorme, que mudava a vida e que nunca mais as coisas seriam as mesmas. Tudo verdade. Mas ninguém me disse que essa trabalheira toda sumia até mesmo nas noites mais exaustivas, quando a gente pega o bebê no colo para niná-lo, cantando para ele dormir. Ninguém me disse que a vida mudava para melhor, que muito do que se questiona antes de parir, vira pó quando a casa se enche de amor fresco em forma de pessoinha nova. Ninguém teve a  bondade de me alertar que as coisas nunca mais seriam as mesmas e que isso é bom. E que essa doação toda amadurece e faz crescer o coração, a ponto de caber o mundo todo, dependendo do surto hormonal da ocasião.

Minha irmã me dizia que uma mulher com filho faz dormindo o triplo que uma mulher que não tem filhos. Achei que tivesse compreendido o que ela falou, mas não. E agora, como eu entendo. E penso nas mães de três e quatro…nas milhares de mães que se jogam para a experiência da maternidade sem concessões, sem medo de extrair dela toda dor e todo amor .

Morando fora e sem família por perto, fica fácil de imaginar que o dia-a-dia com um bebê está longe de ser uma tarefa simples. Aqui fora é mais comum as mães não terem babás ou quem as ajude, é comum assumir tudo sozinha. É comum e também reconfortante encontrar pelas ruas e cafés da cidade, dezenas de gurias da minha idade com seus bebês a tiracolo. E agora eu sei o quanto isso é valoroso, cansativo, mas valoroso. Também compreendi que dentro de tudo que acredito, a minha maior sorte ou maior conquista é poder aproveitar cada dia com minha filha, é estar presente e acompanhar cada fase do desenvolvimento dela… é vê-la crescer, florescer. Quando me vem à mente pensamentos como: Meu Deus, minha vida se tornou trocar fraldas, quando isso vai ter fim? Logo paro e questiono a autenticidade deste pensar. Se alguém se oferecesse para me substituir, se alguém me dissesse que é possível tirar leite para dias a fio e não dar de mama, eu não toparia, já sei. Ernesto Guevara falava algo como: coerência é falar o que se pensa e agir conforme falamos. Não, dona moça, encare que de verdade tu queria estar aqui, fazendo exatamente isso... era assim que pensavas, falavas e agora faz. É preciso muita cegueira para continuar mentindo para si mesmo. E é preciso coragem para assumir e viver o que se acredita. Não há maternidade acidental quando a gente percebe que criar um ser humano, o ser que parimos, é a missão mais nobre que poderíamos assumir. Pena que a inversão de valores tenha tomado conta das mentes condicionadas pelo mundo a fora…e tudo parece ser mais urgente e importante do que ser mãe, quando se optou em ser…

Gandhi dizia: seja a mudança que você quer ver no mundo. E uma amiga me ajudou a perceber o que eu desejava ver e sentir…

Rebecca é minha professora de inglês, uma querida conselheira para assuntos diversos. Ela me fez refletir quando eu ainda processava a informação de que teria um bebe dentro de alguns meses…ela me interrompeu- enquanto eu falava em trabalho, no peso de parar minha vida profissional, por um tempo- “Eliana, o grande job da tua vida está chegando. O maior e mais importante de todos já realizados. Ainda não consta no teu currículo a experiência necessária para o que vem por ai…porque não se trata de Curriculum vitae, se trata de vida, a tua vida…e ninguém no mundo pode ser chamado a realizar essa tarefa, apenas tu. Agora basta que escolhas o modo como vai viver isso tudo…”

Lembro de ter ouvido o ponto de vista dela, engasgada, ainda emocionada e confusa com tudo que estava acontecendo. E muito resistente.

A resistência que sentia foi se diluindo aos poucos durante a gravidez, naquele tempo necessário que a natureza nos deu para elaborar as perdas, os danos e as transformações. Ainda está se diluindo, dia a dia, quando a conta-gotas vou me dando conta da minha nova condição no mundo. E vou me sentindo mais confortável, mais capaz e mais serena.

– Gorda, filho é motor. Foi isso que meu primo Júlio me dizia…. A gente não quer ser apenas melhor, a gente acredita que tem que ser melhor e que seremos. De tudo que me disseram, poucas coisas foram tão motivadoras do que essa abordagem do meu primo.

O que me alertavam durante a gravidez estava carregado de clichê e verdade, mas o que ninguém me disse é que é preciso inventar seu próprio jeito, é preciso encontrar alegria na atividade e não perder o filtro de leveza no olhar. Viver é isso tudo. Os bebês choram, sorriem, dormem, mamam e crescem rápido demais.

Se é assim, vou aproveitar cada mínimo momento com ela. Se a Luna me escolheu para guiar seus primeiros passos por aqui, vou estar ao lado dela para lembrá-la que é possível confiar e que a vida é boa, simples e bela quando se tem as necessidades emocionais satisfeitas. Erich Fromm disse que amor de mãe é paz. E é de paz que o mundo precisa mais, de paz e de mães…

Dar amor, dar amor e dar amor…receber sorriso desdentado de volta é apenas o início da recompensa.

E foi assim que mudei o centro do meu mundo, que desviei o olhar do meu umbigo e passei a me tornar mãe. Quanto ao resto, minha filha vai me ensinar.

FotoER. Pernocas. Quem herda não compra. =)

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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