Gravidez

Em construção…

Toronto_verão_2012:

Não é simples escrever quando um oceano calmo e profundo se torna um mar em tempestade. Em estado gravídico a oscilação de humor e percepção do mundo soam  como carrinhos enlouquecidos numa montanha-russa. Excitação, encantamento, alegria genuína, desespero profundo, caos da existência, amor, gratidão, plenitude, graça, ruína, fim, solidão, prazer, dor, insegurança e mais amor…tudo junto e misturado. Bem sacudido.

Recomeços são assim. Estranhos. Cheiram a morte, porque muito vai morrer para que outro tempo surja no horizonte. Muito da gente vai se reformando num tempo que é outro. Sabemos dos minutos do relógio, sabemos que temos um prazo para que muito do que está solto se encaixe ou apenas comece a se encaixar. E nunca o passar do tempo teve tanto significado. Nunca antes contamos semanas e semanas por meses a fio. Nunca teu corpo e tua alma se alteraram de 7 em 7 dias com tamanha intensidade.

A vida vai ganhando cores novas, sensações esquisitas. Pessoa falando de todo lado. Alertas sobre a dor do parto, o sono interrompido, viagens adiadas, vida bagunçada, responsabilidade, peso e fim da liberdade. Raramente ouvimos sons que surgem do meio da razão, nem do lado cor de rosa, nem do lado escuro da força. Raros são os que comentam da alegria indescritível de ver um sorriso a cada amanhecer, da sensação de empoderamento que só o passar cruamente pelas fases te traz.

Difícil encontrar conselhos que revelem um belo estado de alma, alguém que te fale de como guiar uma vida pela terra, da chance de aprender sobre o maior amor do mundo. Sobre prazer e sobre dor.

Qual é o problema da dor? Eu lá quero passar minha vida anestesiada, evitando mudanças para desviar minha frágil alma do sofrimento? Para que afinal estamos passando pela terra – fico eu divagando – senão para nos colocar em cheque, em total transformação? E não vi nada maior patrolar meus sentimentos do que tudo que se passa aqui dentro, por agora.

A barriga cresce e a outras facetas do mundo se revelam. E outras minhas também. Quem eu sou, quem eu vou ser como mãe dessa bebezinha, como vou agir, reagir, educar, amar…Acho que estou chegando na borda, na fronteira, naquele lugar onde a gente cruza a linha e não pode mais voltar. Não mais minha história, não mais meus pais, não mais o lugar onde nasci. Tudo novo.

A bola está nos meus pés, comigo, tudo comigo a partir de agora. Os erros serão meus, os acertos serão meus. Geração após geração assim a vida se deu. O rito de passagem se inicia aqui, exatamente no estado onde me encontro.

Estamos mais para o fim do que para o começo e sei que grandes acontecimentos estão na curva, a minha espera. E não vejo a hora de experenciá-los. Todos. Da fruta da vida eu quero até o caroço, nada de cortes, nada pela metade.

Quem espera da vida um agrupamento de fatos controlados deve ficar longe da estrada de surpresas de uma gestação. Mas para quem gosta de aventura, não há nada mais recomendado. Pernas para o ar e cabeça ao vento! Impossível controlar, prever. Só viver.

E pelo tanto que ela mexe aqui dentro, imagino que ela também não veja a hora do jogo da vida recomeçar.

Pois cada volta é um recomeço! Não geramos apenas um novo ser humano, geramos a nós mesmos, a todo instante. E como é bom se pôr a prova.

O frio na barriga que dá só de imaginar a volta que minha vida vai dar, não chega aos pés da sensação de estar no caminho trilhado. No caminho do mito, da coisa mais simples e mágica, sem a qual a humanidade estaria extinta: o nascimento de um bebê.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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