Gravidez Parto Natural

Nascer sorrindo

Toronto_17 de outubro, 2012:

Acabei de ver esse documentário feito no Brasil- vídeo  sobre parto natural. Lindo. Clique e assista direto do vímeo!

O tema é recorrente porque a motivação é sagrada. Perdoem a insistência.

Se narrássemos para um marciano a história inicial de um recém-nascido, ele nos julgaria bárbaros e cruéis. Na verdade, lendo a respeito, nem precisamos ser de outro planeta para nos julgarmos primitivos na falta de entendimento com o que acontece com um bebê assim que nasce. O que ele sente, vê, tem medo…o que ele deseja? Há não muitas décadas atrás, acreditava-se que o recém-nascido não sentia nada, era totalmente inconsciente. A ponto de fazerem cirurgia sem anestesia. Impensável?! Pois bem. Não via, não ouvia, não sentia dor. Com o tempo, passamos a saber que ele está ali desde antes de sair, sentindo, ouvindo e guardando cada emoção provocada ainda no ventre da mãe.
Como tratamos nossos bebês ao nascer diz muito a respeito do que somos. E não há um final feliz para essa conclusão, não ainda…A criança quando vem ao mundo deve ser tratada com doçura e suavidade, silêncio e pouca luz, ela está entrando num mundo desconhecido e cheio de contrastes. Até então ela não conhecia sequer a sensação de imobilidade. Esteve se mexendo, mesmo quando a mãe estava parada, durante todo o tempo que considera ‘sua vida na água’. Seria bom pensar a tratar os bebês que chegam como os humanos gostariam de ser tratados em qualquer momento sensível da jornada. Seria bom pensarmos na repercussão deste momento na vida de um ser.
Não é preciso suporte científico de milhares de pesquisas comprovando a relação da violência sofrida na hora do nascer com várias doenças e comportamentos futuros. E elas já existem. Ficar martelando na tecla do “pesquisas apontam” não muda o jeito de pensar das pessoas – elas se consideram carta fora do baralho da possibilidade do universo científico. Então não vamos longe, não precisamos ser técnicos. Fiquemos.
Basta refletir por minutos, se imaginar sendo o neném que sai de dentro, do mundo confortável, com paredes suaves que o protegem, para o o seco, áspero, luminoso e barulhento mundo de fora, no qual ele muito provavelmente será arrancado com força, na luz direta, levantado com irresponsabilidade, levado para longe da mãe logo após o nascimento para checagem…seu cordão umbilical será cortado quase que instantaneamente, como se isso fosse uma necessidade natural. Enfim, um mundo que o recebe dizendo:Somos insensíveis ao que você sente! Quem disse que a vida é justa?! Em todo caso, que fofinho, seja bem-vindo! Para muitos ali, mais um bebê. Para os pais, o seu bebê. Para ele, o começo de tudo por aqui. Para o universo, uma alma essencial e única que nasce. Todos na volta sorriem, o médico orgulhoso do trabalho feito por ele, a mãe aliviada e feliz, e o aparato na volta só termina a rotina de sempre. Só o bebê grita em desespero. E não precisa ser assim. O bebê não precisa chorar assim que nasce dessa maneira. Assista a partos naturais (mamiferizados, na linguagem do Michel Odent) e observe as feições do bebê. Vi um bebê assim. Meu sobrinho, que teve um nascimento lindo, só chorou quando a parteira o tirou do quentinho para pesagem, horas depois. E assim que voltou para o quente e confortável tecidinho na sua volta, parou. O cordão umbilical, por exemplo, não deveria ser cortado com urgência (o corte tardio do cordão provê para o bebê uma quantidade de sangue que vai protegê-lo de futura anemia e doenças, esperando apenas 4 minutos). A natureza é perfeita. Ela não tem a pressa que temos.
Todo mamífero quando nasce quer ser lambido e ficar em contato com a mãe. A historinha de um recém-nascido é abordada num livro bem antigo do Frederic Leboyer com título original “Pour une naissance sans violence”, na edição em português Nascer Sorrindo. Quem quiser visitar o princípio da vida, leia.  Ali também é possível entender muitas causas. Se tiver alguma grávida ao redor, a presenteie com este livro. Ganhei de uma amiga quando estava com menos de quatro meses de gestação e foi vital pra mim. Muito do que o Leboyer escreveu era considerado utopia há anos atrás e agora é prática em maternidades pelo mundo. Ontem mesmo, em consulta com a nossa parteira, fiquei surpreendida ao saber que aqui no Canadá era procedimento mandatório deixar a mãe – pele a pele- com o bebê por no mínimo uma hora, logo após o nascimento, para que ele mame assim que saia. E as parteiras, ao menos, também já tem como prática o corte tardio do cordão umbilical…Tudo isso foi falado por que nos foi perguntado o que queríamos que acontecesse quando o bebê nascesse, se tínhamos ritos especiais (falando de um país com muitos imigrantes e culturas diversas)…Como, na nossa cultura, se recebem os bebês? Perguntou ela. Nos entreolhamos com olhar que variou do irônico ao triste. Explicamos para ela que na nossa cultura as taxas de cesárea são as maiores do mundo e que, portanto, pensar na gentileza da chegada do neném não é nem de longe um tema a ser debatido. Tudo ocorre como a prática hopitalar manda. Sim, ninguém está doente. Sim, não deveria ser um ato cirúrgico. Mas é. Seguimos falando o que imaginamos ser importante assim que ela aporte por aqui, qual o rito consideramos essencial. E não estamos falando de quartinho cor-de-rosa, nem enxovais completos feitos em Miami…fala-se de coisas absolutamente simples, que falem mais a alma…aquela alma que esquecemos que mora bem dentro de nós. Esquecemos de tão entretido que estamos com a ciranda ao redor. Mas ao qualquer momento, podemos acordar…
 
Nossa história para ser humanizada, precisa ser repensada. E o começo dos começos pode ser a luz inicial que vemos ao nascer.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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