Gravidez Parto Natural

O nascimento como negócio

Outubro_2o12_Toronto:
Riobaldo, do Grande Sertão Veredas, disse: Eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa. 

Assim, eu também me sinto. Cresci com a idéia de que os movimentos na terra, na nossa sociedade não se dão de maneira natural, nada veio enviado a fax por Deus. Os homens e mulheres constróem a história da humanidade e interesses devem ser sempre espreitados quando se observa qualquer fenômeno social. Muito cedo passei a me perguntar: Quem ganha com isso? Quem perde? Existe alguém capaz de lutar pela mudança? Esse alguém afetado tem poder, força e alcance? Hummm…Aí começa minha coçadinha na testa e a busca por respostas…

Documentário: The business of being born (O nascimento como um negócio- livre tradução).

 
Há dois anos, minha irmã me enviou esse vídeo sobre Nascimento. Lembro que na época, ela estava decidida a ter seu bebê numa Casa de Parto, com midwife (parteira), doula e seu marido…ela queria trazer seu filho ao mundo, num ambiente calmo, gentil e tranquilo. E assim aconteceu. Lindamente! Agora, chegada a minha vez de decidir, tenho lido muito sobre todos os aspectos que envolvem o nascimento, desde o ambiente que envolve a mãe em trabalho de parto, como todas as consequências da minha escolha para o bebê.  A escolha vai me levar a um resultado, se eu deixar de escolher, já sei o que acontece. Ouço essas histórias todo dia, relatos que acompanham este documentário. Por isso,  estou desenhando em minha mente tudo que imagino para chegada dela. Sem ilusões a respeito do universo que ronda o nascimento, mesmo aqui, no Canadá. As mulheres ou tomam nas mãos as rédeas deste evento e o aproveitam como uma profunda passagem, ou serão levadas por uma onda – já traçada- que não vai respeitar seus mínimos desejos e humanos direitos. Mamíferas de outras laias estão sendo melhor tratadas no momento de dar a luz do que nós, mamíferas humanas. Ver o filme e ler alguns livros sobre o assunto me abriram um mundo paralelo, bizarro e um tanto revoltante, onde as mulheres saudáveis, que carregam bebês saudáveis e que querem ter a opção de trazer seu filho ao mundo de um modo natural, sem medicamento, são praticamente impedidas pelas rotinas hospitalares. Quase choro de raiva quando leio histórias de mulheres que chegaram na maternidade – nos dias de hoje- quase tendo o neném e foram deitadas, monitoradas, ou tomaram injeção pelas costas, sem autorização e totalmente sem necessidade. Isso ocorre e não é no SUS. Chama-se violência obstétrica e os corredores hospitalares estão sendo testemunhas dessas práticas. E o silêncio impera ao final já que o nascimento aconteceu de qualquer jeito, mas outras mulheres estão entrando inocentemente pela porta da frente e vão viver, desnecessariamente, a mesma violação.

O nascimento é um ato fisiológico, natural e nossos corpos foram moldados para ele. Não há nada de errado com o corpo ou fisiologia da mulher moderna. O que há é a difusão do medo e muita falta de informação (inclusive sobre nossa anatomia). Desde pequenas ouvimos relatos de muito sofrimento rondando o parto. Tudo que temos em nossa mente interfere no jeito que vemos o mundo e que vamos atrás das escolhas. Fomos acostumadas a pensar que o nascimento vai se dar, alguém vai parir por nós, alguém fará algo no dia, por isso, não preciso decidir nada. Vou ao obstetra e acredito em tudo que ele diz, ele é o doutor e a lei. E, no entanto, os hospitais estão repletos de profissionais que nunca viram um nascimento absolutamente sem intervenção do início ao fim. Eles podem, muito embora seja duro aceitar, não saber o que estão fazendo. Por isso a praticidade e relativa facilidade em pôr uma paciente em cirurgia, sem absoluta necessidade médica. A cesárea salva vidas e para esses casos de risco ela foi desenvolvida. Claro que uma grávida que não queira ser mais uma a contar a velha história, pode buscar informação, ajuda…e os comportamentos serão diferentes se ela estiver no Canadá, Holanda ou Brasil. O ponto é buscar ativamente uma alternativa quando se quer algo alternativo. A era da inocência  pode ter fim quando as mulheres realmente entenderem o que se passa e pararem de crer na força da palavra que ouvem quando estão vulneráveis, à mercê de uma equipe num hospital. A coisa deve se dar antes, não na hora. Perguntar para seu obstetra qual o índice de cesárea e parto ele pratica é um bom indício para saber qual sua inclinação.

Este polêmico documentário traz estatísticas não muito divulgadas em nossos meios de comunicação, como as taxas de mortalidade materna e de recém-nascidos dos Estados Unidos (país que mais utiliza tecnologia no tratamento materno e que tem o maior índice de morte materna entre todos os países desenvolvidos). Na Europa e no Japão (também no Canadá) 70 a 80% dos partos são realizados com ajuda de midwifes (parteiras). Os casos encaminhados a obstetras na Holanda e Alemanha, por exemplo, são casos onde a mãe ou o bebê apresentam riscos. Aqui no Canadá, o sistema de parteiras é coberto pelo plano de saúde público e as mães com gestação normal, de baixo risco (que são a maioria), podem optar em ter seus filhos em casa ou no hospital com a ajuda da parteira, caso queiram ao seu lado um profissional que não vai te induzir a tomar nenhuma atitude baseada em necessidade irreal ou interesses que não sejam da mãe e do bebê, além de te encorajar durante todo pré-natal com rotinas saudáveis que vão do tempo e ternura dedicado `a gestante, bem como suporte emocional, encorajamento que provém do conhecimento do teu corpo e tudo que vai acontecer com ele nessa jornada. Tudo, inclusive e principalmente, nosso pensamento interfere na tensão dos nossos músculos e parir está totalmente relacionado a função dos nossos esfincters. Alguém já viu um homem ter uma ereção quando se sente ameaçado? Que tal uma bandeja de ferramentas cortantes por perto? Já viu ser natural alguém fazer cocô sendo bem observado por terceiros? Li esse raciocínio num livro e ri muito de pensar que é evidente o porquê muitas mulheres não tem sequer dilatação…Somos mamíferos e assim como uma macaca que dando a luz, vê um predador, é capaz de puxar o filhote pra dentro, nós também temos que nos sentir seguras para dar a luz com tranquilidade. Uma cadela parindo vai para o canto mais escuro e seguro que puder. Não somos diferentes. E como nos sentir seguras dentro dessa loucura que nos colocam a rotina dos hospitais? Como soltar os esfincters com mais de um estranho entrando pela porta e tendo o poder de te tocar sem autorização, nem necessidade? E como ter esperança num país sem parteiras ou com enfermeiras obstetras sendo impedidas de auxiliar o nascimento natural, por leis arbitrárias, contrárias a todo um impulso mundial de mudança? Lamentável que nós, brasileiros, só queiramos imitar os países desenvolvidos quando se trata de moda ou comportamento de massa irrefletido. Por que a imprensa não faz matérias sérias a respeito tendo tanta pesquisa publicada no mundo todo sobre o tema? Nós sabemos bem porquê.

O documentário ajuda a entender em que ponto estamos e porquê estamos vivendo essa situação no mundo dito desenvolvido com relação ao nascimento. O hospital é um negócio e o nascimento se tornou um negócio bem lucrativo também. O bem-estar da mãe e do bebê não são os pontos definidores da ação. O lucro e o tempo sim. Dá para ter uma idéia do modelo moderno de maternidade, totalmente voltado para medicalização do nascimento, onde o parto é tratado como doença e não como algo natural que permeia a humanidade desde seu começo. Onde se pensa que a figura central é o médico e não a mãe. Onde o sistema todo gira em torno da ordem de grandes seguradoras de saúde, convênios – empresas que impõe, inclusive ao médico, práticas muitas vezes contrárias a ética. Aliás, ler histórias de parto desde antes de Cristo nos traz uma dimensão muito dura do que transformaram nossa idéia deste momento. O filme traz entrevistas com especialistas de verdade, como a midwife americana Ina May Gaskin, o obstetra francês com vários livros incríveis sobre o tema, Michel Odent, entre outros. Digo especialistas porque já que se trata de parto, então que sejam pessoas que tenham bem ajudado em partos, não em cirurgia ou eventos obstétricos. Essa dupla presenciou mais de centenas de partos naturais, em ambientes confortáveis para mãe, pai e bebê, onde a mulher pode andar livremente durante o trabalho de parto, ter o filho na posição que a natureza indicou para tê-lo e todo o auxílio e alívio disponíveis e não necessariamente artificiais. Ambos, em suas jornadas de vida, buscam ajudar a mulher na situação do nascimento, pensando nos mínimos cuidados, que vão do ambiente ao toque; da luz do local às palavras ditas na hora. EsCaptura de Tela 2016-10-10 às 0.56.58.pngsasduas almas estão a serviço da humanidade, no seu mais lindo princípio. Devem ser anjos enviados para nos fazer entender que o nascimento não é um único momento na vida: o nascer reflete uma vida e o jeito que a humanidade está nascendo é um perigoso experimento humano do qual vamos colher frutos daqui a poucos anos. Gente assim me emociona! Bom, me empolguei…natural. Voltando!

Tentei achar o trailler legendado em português e não encontrei.  Se alguém achar, me avisa que substituo na hora!!! Acho que foi no ano passado que foi lançada a série More business of being born (trailler), em que a modelo Gisele aparece no minuto 2:27, compostas por 4 DVDs. A série traz entrevistas com mães que tiveram seus bebês em casa, com parteiras, como  Gisele Bundchen (que tem no seu blog várias histórias sobre parto natural e foi influenciada pelo documentário acima a ter seu neném na banheira de casa), a modelo Cindy Crawford que assim que ficou grávida resolveu não fazer as coisas à maneira usual,  além de outras mães cheias de relatos interessantes. Um post recheado de links para pesquisa! Clique e assista. Se gostar do assunto, espalhe! E leia os livros ou ache entrevistas das pessoas citadas aqui. Vale a pena cada uma!
Gisele Bundchen ao ser perguntada porque teve seu primeiro filho em casa, com a ajuda de uma midwife (parteira), ao invés de tê-lo no hospital respondeu assim: Eu queria experenciar a transformação. Foi o momento mais incrível que já vivi na vida, sentir meu filho chegando através do meu corpo. Tudo terminado, eu nunca me senti tão empoderada como me senti quando olhei para meu bebê e pensei: Oh Deus, nós fizemos isso juntos!

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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