Amamentação Gravidez Parto Natural Primeiros Meses

Relato de parto: do teu, filha.

Novembro, 2014_Toronto

Luna, na primeira semana do teu nascimento, escrevi esse relato que nunca publiquei. Por alguma razão astral, hoje, exatos dois anos depois ele pula na minha frente e quase pede para ser lido. Assim será…se tiveres paciência para ouvir uma história.

Se os fins estão contidos nos começos, nem é preciso falar do meio…basta a origem das origens. O primeiro respiro fora d’água!

Minha bolsa estourou as 8h da manhã de sexta-feira, dia 2 de novembro de 2012. Passei a manhã sem sentir absolutamente nada. Nenhum sinal de contração. De tarde tive contrações leves e ritmadas. Consegui terminar de dobrar roupas, atender telefonemas de aniversário, comer e tomar mate com a Carô. Só no entardecer que entendi que o teu nascimento estava muito próximo…

19h – 20h – Tinha escurecido. Era inverno já. A temperatura bailava em torno dos 6’C. Fui para o quarto e acendemos as velas, ligamos luminárias aqui e ali pela casa. Resolvemos que era hora de concentrar as energias, pensamentos. No agora. Usamos técnicas de massagens ensinadas no curso, uma massagem leve com a ponta dos dedos que faz liberar a endorfina, relaxa, o que  ajuda na produção de ocitocina, o hormônio do amor, o hormônio necessário para fazer tudo aquilo acontecer naturalmente. Parir é um ato sagrado e sexual. Quanto mais mamiferizado for o ato, mais rápido e tranquilo ele será. Todos os estímulos externos devem ser diminuídos. Deve imperar o silêncio, a intimidade, a voz baixa e calma, a pouca luz…e os movimentos que facilitam a descida do bebê. Ficava eu fazendo movimentos circulares, sentada na bola de pilates. Quando a contração vinha, e já estava forte, eu fazia a respiração longa. Entrava para o mundo interno e só saia de lá 45 segundos depois. E assim fiquei por um bom tempo. Entendi de cara que a metáfora da grande onda era verdadeira. Assim como no mar, quando vem uma onda imensa, o melhor a fazer é mergulhar, aqui funciona igual. Se tu esquece de mergulhar, a onda te pega de frente e te tonteia, te faz afogar e desesperar…basta que tu entenda que na próxima, tu deve mergulhar novamente. Quando eu esquecia disso, o Lins estava ali, do meu lado para me lembrar. Ele me fazia voltar para o prumo, respirar fundo, longamente. As contrações ficavam mais e mais fortes, eu tinha que me concentrar a cada 2 minutos. Lins ligou para Laurier, a midwife, ela ficou de vir me avaliar em casa e sugeriu que ligássemos para doula. Fizemos!
20h30 Laurier e a doula chegaram com 15 minutos de diferença. A midwife checou minha dilatação. Estava com 3.5 a 4 cm. Combinamos de nos encontrar no hospital assim que eu achasse que tivesse que ir. Nós todos sabíamos que quanto mais tempo eu ficasse em casa, melhor. O ponto era a distância até o hospital,  essa era minha principal preocupação. Levaríamos meia hora pra chegar lá. Não queria sair no auge da pressão, quando as contrações estariam supostamente mais fortes e mais próximas.
20h30 – 22h30 Fiz tudo que podia para aliviar a pressão quando vinha a contração. O Lins ou a doula apertavam com força as laterais da minha lombar, fazendo movimento contrário à contração. Isso aliviava bastante. Passei um tempo embaixo do chuveiro, com água quente nas costas, fazendo piada da cara dos dois me olhando na porta. Num dado momento, me perdi e não respirei, julguei que fosse morrer, quase me desesperei, mas o Lins me lembrou que a próxima onda estava vindo, que era para viver e sentir. Eu só pensava em aproveitar cada uma das contrações para dilatar, não queria sentir a pressão em vão. Ela existe para um fim, não é como minha dor de cabeça que não tem fundamento nenhum.
22h30 Liguei pra Laurier- e pedi que fôssemos para o hospital. Ela combinou que estaria lá as 23h30! A midwife jurava que o bebê nasceria lá pelas 7h da manhã. Eu queria ir pro hospital para aproveitar a jacuzzi e me sentir bem no novo ambiente. E assim foi.
23h30  Daniel, amigo nosso, passou aqui para nos levar para o hospital. A doula e o Lins iam fechando tudo, pegando as moxilas e eu nem sei como me vesti, afinal estava abaixo de zero a temperatura, e não tinha preparado a roupa que iria, por óbvio. Sai do apartamento enfiando os tenis. E parei 3 vezes até entrar no carro. Tinha contrações fortes de 2 em 2 minutos. O hospital fica longe de casa, a sorte é que era sexta de noite de inverno. Ninguém na rua. Pegamos a highway 401 e logo chegamos.
23h50 Chegamos no hospital. Continuei tendo que parar para lidar com a contração a cada 2 min. Até ver a Laurier no corredor do hospital, tive que parar algumas vezes. Foi fantástico ir direto para o quarto, sem ter que parar e preencher fichas, falar com outras pessoas ou ser examinada por desconhecidos. Entrei no quarto já tirando a roupa. Nem consegui ver o que tinha a minha disposição, como a bola de pilates, que estava me ajudando em casa. A midwife estava com tudo pronto, a luz baixa, como pedimos.  A Laurier me examinou e concluiu que minha dilatação estava muito adiantada, ficou surpresa! 7,5 cm! Ela ainda assim achava que o bebê poderia nascer de manhã, considerando que era meu primeiro parto. A outra midwife, que fica responsável pelo bebê, chegou uma meia hora depois, super apressada, tirando a roupa e pondo o jaleco. Fiquei feliz em vê-la. Laurier me perguntou se eu queria ir para jacuzzi, que já podia, porque minha dilatação estava boa e não havia risco de relaxamento e retrocesso no trabalho de parto. Falei que sim e ela respondeu que demoraria mais ou menos 15 minutos para encher. Na próxima contração após a chegada, perdi meu tampão ou como chamam aqui muco plug. Ela fez um comentário, brincando que era um bom sinal. Vi que tinha sangue, mas honestamente não conseguia focar em nada muito específico, estava muito concentrada em não perder a linha da minha respiração. Voltei a ouvir o CD do hypnobirthing e lembrar que meu bebê descia forte e saudável…
3 de novembro de 2012- Mãe-natureza me deu a mão
00h40 A midwife volta dizendo que eu já poderia ir pra Jacuzzi. Mas minutos antes dela dizer isso, senti uma pressão muito forte, diferente das outras. E disse que estava parecendo que ia nascer, que algo estava passando pelo canal. Ela disse que podia ser a pressão do bebê, mas que estaria cedo demais para iniciar o “pushing”, parte final do processo. Pediu que eu esperasse as próximas contrações para ver se isso se manteria. Se manteve. Ela resolveu checar de novo a minha dilatação. Mais uma surpresa: estava completamente dilatada – 10cm em muito pouco tempo. Fiquei numa euforia misturada com alívio. E ao mesmo tempo, meu corpo já tinha tomado conta do controle. Eu já não conseguia decidir que posição tomar. Ela disse para que eu assumisse a posição que me sentisse confortável. Fazia minutos que eu havia deitado na cama, de cansaço. E lá fiquei. O Lins e a doula ficaram em pé a minha direita. Minha respiração teve que mudar o foco e demorei para me adaptar com outro padrão de respiração. Não mais longo, agora curto e direcionado para baixo.
00h50-1h30 Fiquei tentando o “pushing” e pensando em tanta coisa. Foi a parte mais intensa do processo, não sei dizer se a mais dolorida, porque não sentia uma dor absurda, sentia mais medo. Medo de empurrar forte e sentir outra coisa além daquela pressão, medo de terminar. Não sei explicar. Mas lembro de estar absolutamente consciente de cada palavra que eles falavam. Lembro da Laurier dizendo: Eliana, look at me…e pedindo que eu parasse de fazer caretas e deixasse a face relaxada, para que toda força ficasse concentrada na descida. O mais engraçado era o Lins, me traduzindo tudo ao lado, imaginando que pela minha cara, eu não estava mais neste planeta. A cada contração eu não buscava o final, buscava o momento que ela passaria para que eu pudesse relaxar. Porque é incrível como não sentimos nada entre uma contração e outra. Nada. Meu modo de encarar mudou quando a midwife que cuidava dos batimentos do bebê falou alto: It’s low, but still ok. Olhei no relógio gigante na parede em frente: 1h30 da manhã. Pensei, agora vai. Chegou a hora, relaxa e deixa acontecer…tá quase…
1h30 Nas próximas contrações tentei fazer tudo certo, tudo como a midwife explicava. Ela perguntou se eu estava sentindo uma queimação, que estava passando pelo círculo de fogo, que é quando o bebê coroa. Ficavam todos me incentivando. Deu tempo de ter devaneios enquanto sentia tudo, pedi ajuda a mãe terra, a todas as mulheres que já tinham passado por aquilo, me senti conectada com o sagrado feminino. E pensei que o parto era mesmo metáfora da vida, estamos sozinhos ao nascer, como estamos ao morrer. E parir assim é uma espécie de contato com a morte, talvez o único, em plena vida. Intenso demais. Meu medo era que a dor aumentasse, mas para minha surpresa, dei umas três forçadas e plum!
1h38 Luna nasceu!!! Saiu escorregando. Senti um molhado, um quente, um alívio, uma alegria…olhei pro Lins e não podíamos acreditar que tudo tinha terminado como a gente imaginava, que tínhamos conseguido dar um nascimento sem drogas, puro e gentil para nossa bebê. Inexplicável a emoção de tocar o corpo pequenino do teu bebê, um mar de relaxamento e gozo tomou conta do meu corpo. Parir assim permite entrar em contato com teu lado mais selvagem, animal, primitivo e espiritual. Uma aura de luz e amor toma conta de tudo ao redor.  A Luna nasceu com olhos arregalados, sem chorar , sem fazer barulho algum. Alerta. Só me olhava, observava meu rosto com tranquilidade curiosa. Mamou. Alguns minutos depois, o Lins cortou o cordão. Pedimos o corte tardio do cordão, para que a Luna recebesse todo o sangue que eu ainda podia lhe transmitir. O cordão só foi cortado quando parou de bater, quando perdeu a vida. Laurie me informou que ia dar dois pontos no períneo (aqui não se faz episiotomia como regra, muito menos as midwifes). Eu, que morro de medo de agulha, não senti nada…só sentia paz. E um amor imenso no peito. Olhava pra ela e perguntava da onde ela vinha. Foi simples, rápido, muito melhor do que planejei.

3h40  Fiquei com a Luna no peito mais de 2h mamando. Quando então a outra midwife pediu para pegá-la e fazer os procedimentos todos, dar a vitamina k na perna, pôr o trequinho nos olhos, vestir…o Lins ficou ali, comigo e com a Luna o tempo todo. Foi ele que a segurou quando chorou pela primeira vez, na hora que a tiraram de cima de mim. Sentiu frio. A Luna não saiu do quarto nem por um segundo, tudo foi feito ali. Quanto a mim, comi uns três sandubas direto com suco. Laurier mandou eu comer e beber água. Precisava fazer xixi para deixar o hospital.

4h30 Laurier voltou perguntando o que tínhamos decidido, se iríamos querer ir para casa ou ficar num quarto. Estava tudo bem e já havíamos mencionado o desejo de nos recuperarmos em casa. Não gosto de hospital e não me parece um bom lugar para descansar. Combinamos de ir as 5h30. Ligamos para Daniel e Raíssa, amigos muito queridos, eles ficaram de nos buscar.

5h30 Saímos do hospital e fomos pra casa. Não pagamos nada, pois a saúde é pública e gratuita e as midwives fazem parte desse sistema. Já tínhamos recebido dela todas as orientações e sabíamos que ela iria até nossa casa no fim do dia. Estávamos radiantes e calmos. O parto da Luna foi a primeira e mais importante vivência que tivemos juntos, como uma família. Saímos como casal, voltamos a três.  O dia ainda não pensava em clarear e estávamos de volta. Nossa casa ainda parecia um campo de batalha, pela bagunça toda. Ignorei o caos e fomos pro quarto dormir. A Luna dormia tranquila e mamava de duas em duas horas. Foi assim que nossa nova vida começou. Do dia que nasci até o dia em que ela nasceu, não havia passado por nada tão intenso, nada que me desse a real dimensão de que estava viva e muito capaz. O processo é ativo, não passivo, é como o processo de amar, de se doar e entender que sua jornada sozinho teve um fim. Uma experiência positiva de parto nos faz sentir capaz de fazer qualquer coisa, é uma sensação de poder e força indescritíveis. O amor liberado pelo parto e amamentação geram uma força protetora em volta da mãe e do bebê, o resto, ah, o resto é silêncio.

Gratidão, filha, por ter passado por essa jornada comigo. Somos desde então inseparáveis almas faceiras e só dois anos se passaram…

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

1 comentário em “Relato de parto: do teu, filha.

  1. Amei! Lindo e emocionante!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: