Amamentação Primeiros Meses

Três meses numa vida

Fevereiro_2013_Toronto:
E poIMG_0873.JPGsso sorrir. Parece uma eternidade, mas não. Três meses se passaram desde o dia que entrei em casa com uma bebezinha miúda nos braços. Uma vida pequenina e corajosa, pois ela já fez da chegada ao mundo um evento de grande ousadia e beleza.
Nasceu com delicadeza, bravura e curiosidade.  Durante o trabalho de parto, sem nenhum medicamento rolando nas veias, só imaginava o que ela não estaria sentindo, passando no canal que lhe traria para o lado de fora.
Foi uma jornada incrível essa que operamos juntas. E fomos felizes. Felizes porque fizemos exatamente como combinamos nas nossas conversas astrais, ela dentro do útero e eu ali, alisando a barriga, parecendo louca falando sozinha. Funcionou. Ela ouviu minha proposta de nascimento e topou. Sucesso é conseguir o que se propôs interna e intimamente realizar.
E assim foi: 1h38 da madrugada do dia 3 de novembro. Nasceu sem chorar. De olhos arregalados, bem alerta e com fome foi posta direto em contato com a minha pele e por ali ficou por horas, até que fossem iniciados os procedimentos de rotina- adiados linda e propositadamente pela parteira. Nunca saiu do nosso lado. Foi sempre tratada com respeito, carinho e cuidado. Afinal era uma recém-chegada ao mundo e todos sabiam da importância e sensibilidade daquele instante para ela. Mamou, me olhou, sentiu o universo ao redor, dormiu e só berrou tempos depois porque lhe deram uma agulhada incômoda na perna. Sorte que seu pai estava ali, de olho para lhe dar conforto, enquanto eu, ao lado, me recuperava da bela escalada do Everest que tinha acabado de experienciar. Labourland, todos sobrevivemos e recomendamos a passagem. Luna saiu da bolha aquática e foi parar em casa no mesmo dia, sem frescura e sem problemas. Não tivemos intermediários, nem tradutores, entre nós nem nas primeiras horas de vida. Tivemos sempre que nos perceber e entender solitas. Ela e eu. Eu e ela. E tudo correu tão bem. Não teve dificuldades para se adonar da nova tarefa: mamar para crescer. E foi o que fez, incansavelmente. Nos primeiros cinco dias recuperou o peso que tinha ao nascer. Lembro da midwife me dizendo: “Ela sabe o que está fazendo”; ao vê-la mamar com gana.
Minha Luna veio me ensinar todo o dia que preciso desenvolver a tolerância, o olhar em perspectiva para a vida. Ela veio me mostrar o quanto meus dias podem ser bons, embora caóticos. Ela reafirma minha capacidade de amar sem medida, de me doar com um sorriso estampado na cara, não importa o que aconteça. Não há religião, doutrina, curso ou filosofia que me faria – de forma tão intensa e eficaz – superar tudo – minhas maiores dificuldades, defeitos e teimosias. Minha pequena veio me dizer que se minha missão por aqui era lapidar a pedra bruta do que sou, ela me ajudaria de maneira dedicada, facilitaria meu aprendizado e desenvolvimento. E é assim que me sinto passados 3 meses de sua chegada: me sinto uma Eliana melhor (não, definitivamente não estou falando da aparência!). Esse papo todo me fez lembrar de uma cena do filme Away we Go,  em que um dos personagens, numa lanchonete, em Montreal demonstra para o casal de amigos grávidos o que é ser pai e mãe e como funciona a dinâmica com criança em casa. Ele usamaple syrup como metáfora do amor, como o mais importante elemento de um lar, do que não pode faltar entre um casal com filhos e vira o xarope sem dópara demonstrar o quanto é preciso despejar sem medida. E diz: ‘e quando você pensa que terminou, que não tem mais de onde tirar…você encontra e tira mais e dá mais e nunca tem fim…’ Esse olhar resume um pouco do quanto ter crianças por perto nos permite melhorar, nos faz, ajuda e facilita a tarefa.
Não faz muito que entendi que exigir mudança de si próprio é mais justo e desafiador do que exigir a mudança do outro. De coração, não quero mais mudar ninguém ao meu redor. Estou satisfeita se conseguir operar pequenas alterações em mim mesma, me sentir mais humana, mais leve, mais tolerante, mais madura, mais feliz. Acho que ter um filho nos dá a oportunidade de sermos pais e isso não é nem óbvio nem tão natural quanto parece. Tem muito pai e mãe por ai que só se entitulam assim pela ocasião de terem um descendente na terra, não por terem assumido subjetivamente o papel de, não por aproveitarem a bênção que é ter sido escolhido como guia de uma alma humana. Meu sogro um dia disse: “Todos querem ter uma mãezona. Mas ninguém quer ser uma mãezona.” Concordo com ele. Sou parte de uma geração de filhos eternos, pessoas que se encontram na idade adulta, mas que não gostam de assumir isto. Brincam de achar desculpas para não crescer e a brincadeira parece até coisa séria, pois ilusão coletiva faz parecer tudo normalidade.  E pensei que a gente perde boa parte da vida nos remetendo aos pais, aos atos dos pais…que é complicado vivenciar o ponto de virada, aquele ponto a partir do qual não se quer mais se sentir apenas filho; aquele momento em que queremos ser a mãe, o pai, o que provê, a nova fonte de amor. O que é uma pena enorme. Uma pena e uma incapacidade de perceber o prazer imenso que existe na condição de dar ao invés da condição de só receber ou apenas se vitimizar.
Enfim…90 dias se passaram…90 dias de puro leite materno que a fez saltar alguns kg na balança, algum peso em formato de bochecha fofa. Um desbunde nosso corpo produzir o alimento mais completo da natureza. Um orgulho sem igual é o de ver uma pessoinha crescer só de mamar o teu leite. Bem…De tudo que me aconteceu até aqui, de tudo que desejei, mas não planejei, essa aventura está sendo a mais mágica e poderosa. A maternidade não é ensinada em lugar algum e não poderia ser aprendida em curso ou livro. Deste ponto em diante, todos os erros e todos os acertos serão meus. Serei eu a referência que essa criança vai ter. Sou a responsável por criar suas primeiras memórias. E se assim é e assim eu desejo que seja, quero dar todo meu afeto, todo meu tempo para criar as melhores recordações que ela terá. Quero buscar minha bebê no berço todas as manhãs sorrindo para que ela sinta que a vida pode ser boa, que é uma escolha se empolgar ou entediar quando se tem para comer, se tem para morar, se tem para amar. A infância é o lugar mais precioso que temos, é o lugar eterno que vamos nos remeter por todos os anos que ficarmos por aqui. Das experiências que vivemos nela se extrai parte do que somos. De toda dedicação que nos foi dada na vida, é dessa etapa a que mais lembramos e são das pessoas que estiveram presentes nesse ‘lugar’ que tiramos toda a referência de cuidado…talvez seja por isso que os avós sejam tão carinhosamente lembrados. Por que presença é tudo que uma vida pequena precisa.

Três meses, noites em claro, dores nas costas, sensação de esgotamento e plenitude e amor e fúria e doçura…tudo resumido num sorriso de bebê faceira numa manhã que tanto faz se é ensolarada ou cinza. É por essas e por outras que sinto nunca ter tido tarefa mais sensível e desafiadora em mãos. É por essas e por outras que nunca estive tão cansada e tão agradecida por tudo que tenho aqui dentro de casa. Enquanto escrevo, meu tesouro dorme como anjo. As cólicas passaram, como tudo que passa…Faz mais de dez dias que ela dormiu a noite toda pela primeira vez. E isso é só o começo…um único e bom começo. Melhor marcar no tempo.

FotoER_parque em Ontário.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

0 comentário em “Três meses numa vida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: