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Boa noite, monstro!

Faz dias que chove sem trégua em Toronto. A perspectiva de passear livre de roupas fica um pouco distante. Mas hoje às 5h da tarde, o sol espantou as nuvens. E por algumas horas, pudemos andar pelo parque e ir jantar em algum lugar próximo de casa. Na volta, já escuro, Luna corria na calçada e me pedia para ser “o monstro que iria pegá-la”.

Eu corria, fingindo ser monstruosa e malvada, ela corria, parava e dizia que iria acabar com o monstro, pois tinha poderes especiais obtidos do feijão que come sem dó. Sou forte, eu congelo você, monstro!

Enquanto brincava, eu pensava na maravilha dela precisar forjar monstros imaginários num mundo que desde o início das eras foi um local não confiável, inseguro por natureza.

Mas voltemos ao monstro. Eu quase a pego e ela entrega a mochila pro papai e volta para acabar comigo. Afinal, meninas valentes enfrentam seus medos com coragem, sob o olhar do pai, tenha ele a representação que tiver.

Ao chegar em casa, cai ‘morta’ no sofá, esperando misericórdia da minha vítima perseguida pobrecita. Estava exausta de correr. Ela vem, me vê fingindo dormir, me dá um beijo na testa e diz: Boa noite, monstro! Ainda comenta com o pai dela que é pra falar baixinho que o monstro quer nanar…ele retruca: mas o monstro não é mau? Tu não tem medo dele? Ela responde: às vezes ele é mau. Agora ele só quer nanar.

São de momentos assim que minha alma levita. Aos poucos a Luna entende que nunca existe só um lado, uma versão, um modo de ver. Existe a história da Chapeuzinho sob o ponto de vista dela, mas também há a versão do lobo mau. Quem é o lobo mau? Quem contou a história? Quem patrocinou o livrinho?

Em outra situação que vivemos em Toronto há um ano, andávamos brincando na rua no verão e vemos vindo um grupo de pessoas que identifiquei como doentes mentais, acompanhadas de técnicos. Não quis ir para o outro lado da rua. Luna chegava do Brasil depois de uma temporada de muita troca afetiva e contato humano. Chamava todos de titios na rua. Com dois anos não tinha critérios para julgar perigos. Seguimos em frente. Quando vi uma senhora chinesa se aproximando de uma forma diferente, a peguei no colo. O pessoal que acompanhava o grupo a segurou. Ela começou a chorar, queria pegar a Luna no colo…A Luna se assustou  muito. Tentei acalmá-la. Ela dizia:

A vovó quis me pegar. 

– Não é vovó. É uma senhora muito doente. 

E ela logo disse: é uma bruxa, mamãe, é um monstro…

– Não, Luna. Não é vovó nem bruxa. É só uma pessoa com dodói na cabeça.

– Que nem você? (se referindo as minhas enxaquecas).

– Outra doença, filha. Ela talvez seja uma pessoa sozinha, sem amor…não sabemos o que ela passou na vida. Se teve netinhos, filhos, se tiraram dela…ela pode estar com saudades da sua família. Ela também não é daqui, como nós, é uma imigrante. Só isso. Mas vamos prestar atenção, por que estamos sozinhas aqui, né…e tem muitas pessoas sem amor no mundo.

– tadinha, dela…ta dodoi…Tem muito titio maluco, né? Finalizou se refirindo ao que observava andando de metrô pela cidade.

Essa deixei passar. Não é fácil interpretar esse mundo complexo para uma criança pequena. Se tem algo que presto atenção ao educar a Luna é que não existe preto no branco e branco no preto em todas as situações. É preciso olhar para história de cada ser humano, entender de onde veio, o que passou, por que pensa e age da forma que lhe parece por bem. O maniqueísmo natural propagado aos quatro ventos, do império romano à propaganda, das conversas de bar aos bancos escolares, não me convence. O planeta não está divido entre o Reino da Luz e o Reino das Sombras. Somos todos feitos da mesma matéria, tentando entender a melhor forma de viver essa vida.

Exige tempo e paciência transferir tua visão de mundo para um ser tão novinho, mas penso que essa é uma boa forma de melhorar o futuro….deixar pessoas menos infantis para lidar com as consequências dos seus atos, pessoas menos mimadas, que tenham compreensão maior das situações…adultos que se questionem e não repitam insanamente o que lhes disseram.

Se há algo que quero e sobrequero, como diria Riobaldo, é que ninguém seja capaz de nos colocar medo, que ninguém nos costure o cérebro e introjete veneno.

E duvidar, caro leitor, é divino. Bom sempre parar para refletir antes de julgar.

Pra ti, Luna amada, se um dia me ler, entenda que sempre quis manter teu modo generoso de olhar o próximo, por mais distante que a todos pareça.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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