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Creche em Toronto: nossa primeira vez.

Creche, escolinha, daycare, como preferir. 

Frio de fritar as bochechas logo no primeiro dia de aula. Pensei tanto no Chapolim Colorado. Pensei na liberdade perdida, nas rotinas de manhã cedo, nas mémorias do gelo do Alegrete no inverno. Nem posso reclamar. Nem posso sequer dizer que tenho traumas da creche. Tive uma primeira infância entre algodões, criada perto de meus avós amados. Fui direto para o Jardim da Infância aos 4 anos e não recordam os meus genitores de nenhum grande escândalo na época. Claro que todos lá falavam a mesma língua que eu e entendiam as mesmas regras. Era de tarde, né mãe? Acordar cedo não deveria ser para pecorruchos inocentes. Sim, eu cresci, sai de casa, me formei, migrei, tive filho e ainda penso que dormir e ter tempo para o ócio criativo são direitos sagrados dos micro seres em formação. O resto é adaptacão ao mercado de trabalho e da vida como ela se põe à mesa, nada relacionada com a busca da essência de uma alma.

Re-a-li-da-de bate à porta. O bebê nasce, cresce e vai um dia te fazer acordar para levá-lo na escola e mais tarde em lugares piores. Até esse momento não precisamos entrar em nenhuma caixa que não quiséssemos meter o pé enquanto pais.  Criamos a Luna como entendíamos por bem, sem obedecer fatos comuns nem no Canadá nem no Brasil. Só que escola é uma instituição…algo que eu fugiria se pudesse. E não me falem de socialização, porque essa parte me dá arrepio. Socializar é uma coisa bem diferente e não é só na escola que se pode aprender. Se assim fosse, o que seriam das muitas outras civilizações com outras ideias que não as nossas? Pode julgar à vontade, são só ideias assim que minha cabecinha produz.

Dia D: Parecia piada esse tempo na segunda-feira de manhã, sensação térmica de -22C, neve caindo sem dó. Tivemos que entrar num café na esquina da escola para descongelar um pouco e seguir o caminho. Bonjour, (rapaz francês atrás do balcão): Nutella Latte com vodka pra mim, por favor? Brincando nada…cheguei a pensar no porquê dos Russos tomarem tanta vodka. Luna faceira tirava a luva sem saber do perigo de ficar solta ao vento. Logo chegamos e ela começou tímida, mas logo se soltou. A Escolinha é uma cooperativa dirigida pela comunidade e pelos pais das crianças que lá estudam. Os daycares em Toronto custam um braço e uma perna e não é tão simples conseguir subsídio do governo para reduzir o rombo no orçamento doméstico. Aqui ao invés de dizer que algo lhes custou os olhos da cara eles usam em inglês a expressão: custou um braço e uma perna…Bom, mas voltando da viagem linguística…

A escola ocupa a área interna ligada a uma igreja linda. Até hoje, Luna frequentava as ruas e cafés da cidade, os parques, a casa das amigas…ops e um Centro comunitário que fica ao lado da mesma igreja, chamado Mothercrafts, que tem atividades para crianças pequenas o ano inteiro e área de brincar no inverno crítico. Tudo sempre de graça, na vasca. Nos moldes, cuide do seu filho, pariu Matheus que o embale. Mas o local é igual a uma escolinha, com materiais e brinquedos e rodas de música, regras, rotinas, etc. Só que não havia culpa envolvida em deixar a criança em casa num dia desses!

Maaas…Agora que a coisa vai ficar séria em setembro, quando começa o Júnior Kindergarten 

resolvemos colocar a criança na rotininha das pequenas vítimas do planeta: A gloriosa escola. 

A parte boa é que fica a 6 quadras de casa e tem duas professoras na classe mais um pai / mãe voluntário do dia. É bem acolhedor o ambiente e isso para mim era a coisa mais importante, considerando a cultura aqui de maior distanciamento. 

É bem interessante começar a aprender sobre a vida escolar aqui no Canadá. Não prestava muita atenção nas conversas até agora. Confesso que evitava por pura negação. Sempre tive receio de ter que me fixar pra sempre num lugar só para não traumatizar a cria com tanta mudança de residência. A sensação de que a criança vai pra escola e então agora é sério, precisamos ficar, não dá mais para viajar muito, se aventurar sem datas pra voltar.  Mas tudo isso é uma idéia.

Aos poucos percebo que os preconceitos que eu tinha eram parecidos com aqueles que ouvimos sobre ter filhos, de que isso lhe tira total a liberdade. No fundo, as escolhas cabem aos adultos. E nessa hora a liberdade pesa. As decisões estão nas nossas mãos. O tempo dedicado à criança e onde ela vai viver e estudar depende de seus pais. E há muita gente se movendo nesse planeta sem maiores problemas. Estamos criando um espaço de memória eterna e essa matéria não foi dada na faculdade, nem no MBA, nem LLM…O mundo está dando de ombros para o que tu faz com a infância do teu filho. Se tu vai pôr teu filho numa escola pública do bairro, na Católica do bairro ou numa particular como a minoria dos canadenses faz, isso é tu quem vai decidir. Só que chega a hora e sempre é traumático pensar no peso dessa decisão, nas suas consequências.

 Esse é o apenas o resumo- desabafo das primeiras percepções nesse novo ramo. Já está feita a matrícula da Luna para início das aulas do Jardim da Infância. Aliás, foi uma corrida tensa online quando abriram as inscrições dia 13, porque é muita competição para as vagas. Nessa escola as vagas costumam esgotar em 2h. Ainda temos uma entrevista com a diretora para confirmar se Jesus nos aceita de volta. A criança não é batizada, mas os pais foram. Valeu, mãeee!!! Se não fosse assim não poderíamos sequer tentar vaga lá. Escolhemos a Católica, mas se não rolar será a pública do bairro. Outra informação é que estamos limitados a nossa área de moradia, uma linha imaginária dada pelo governo na qual se insere uma escola pública. Por isso viemos morar nesse bairro, porque tem ótimas notas a tal escola pública.  Enfim, virou quase um post informativo, o que nunca é minha intenção. Medo de informar.

Luna ficou sem chorar e isso quase me fez chorar de alívio. Ter a companhia daqueles outros pais que pensam parecido com a gente dá sim uma sensação de pertencimento e um certo conforto. Confesso. Todos conhecem as crianças e os outros pais pelo nome. A experiência completamente diferente da primeira tentativa que fiz há 6 meses. Nada como esperar o tempo da criança para não ter trabalho nenhum em mudar de fase. Tudo seria mais natural se não tivéssemos tanta pressão da sociedade para enquadrar indivíduos desde o nascimento. Gravidez, parto, desmame, desfralde, adaptação, tudo isso seria lindo se o tempo pudesse ser respeitado. Três anos não são dois e meio. A gente não evolui muito em 6 meses por isso considera difícil crer que alguém amadureça nesse período. Pra terminar, a musiquinha que a teacher canta cada vez que eu apareço para buscá-la: Luna, Lu-na it’s time to go home! No fundo a escola está sendo legalzinha com a gente e eu que pensei tão mal dessa fase… 

 Perante o inverno e mudanças profundas, somos todos crianças mimadas de beiço pronto para qualquer dificuldade. Janeiro está passando. A vida está passando! Cá estou com 35 anos, feliz como nunca e perdida como sempre. Nem acredito em tanto que passou. Os pequenos nos ensinam a virar gente, mas precisamos estar atentos. … Logo tudo estará feito e precisará ser refeito. Afinal, são ciclos…ninguém morre sem virar a página.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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