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Dançando sob a neve que cai

Toronto_2015_abril (retorno do ano sabático e início da nova vida)

Luna flor,

Hoje é o primeiro domingo de Páscoa que tu acorda consciente de que é um ser humano, ou melhor, uma menina bem humana de dois anos de idade.

Ontem, ao cair do dia, flocos de neve bailaram no céu, enquanto jantávamos de frente para a sacada. Um olhar e não acreditei. Imagino a decepção de todos que por aqui esperam a primavera e não aguentam mais ver neve, mas pra gente que ficou fora o inverno todo, foi como a primeira vez. Fomos para sacada e dançamos e cantamos “Você quer brincar na neve?” e “Let it go” se sentindo a própria Elsa do Frozen subindo a montanha gelada.

Tu era a felicidade em forma de gente pequena. Estava, enfim, no mundo mágico da neve, de novo. Havia esquecido o quanto andamos contigo pelas calçadas glaciais no teu primeiro e segundo inverno. Não importa o passado. Importa viver o segundo como nunca mais.

Para te fazer voltar ao modo “hora de dormir” tive que inventar muitas histórias sobre o boneco de neve que faríamos logo cedo, sobre o coelhinho que viria trazer ovos caso as meninas se comportassem e dormissem tranquilamente. O tempo também nos enganou e o dia amanheceu seco de novo. E tu nem lembrou do tanto que dançou…

Está muito frio lá fora, voltamos para Toronto há dois dias e tu parece absolutamente readaptada. Quem te vê com narizinho vermelho do vento congelante nem pode imaginar que tuas pernocas ainda estão bronzeadas dos último verões sequenciais que caçamos pelo mundo a fora. Quem acha que teu cabelo é mais claro do que antes, não pode saber o quanto de sol ele tomou pelas ruas das cidades que passou. A escolinha da vida te mostrou o quanto pode o mundo nos fazer adaptáveis. Se o cérebro de um adulto, costurado, se reabre em mil facetas ao encarar uma nova cultura, língua ou lugar, imagina o teu cérebrozinho, plástico, receptivo e zerado de pré-concepções.

A convivência com tantas pessoas queridas, com tantos primos e tios e tias, cheguei a temer que sentisse uma falta medonha de abraço amoroso e a festa sem motivo aparente que recebia por onde quer que passava. Mas ainda não vi resquícios de dó de si mesma na volta ao cotidiano a três. Anda por Toronto sabendo que a cidade está para sempre marcada na tua trajetória.

Enquanto o avião aterrissava `as 6h da manhã de quinta-feira, para te fazer ficar quietinha na cadeira com o cinto afivelado, continuei a história da tua vida, te mostrando pela janela as luzes da cidade onde desde sempre viveu. Tu olhou espantada e gritou de euforia pra gente: EU NASCI, EU NASCI. Sim, Toronto. A cidade onde nasceste estava ainda dormindo quando descemos nela sem fazer muito barulho. Faz pouco tempo que tu entende a ideia de que bebês estão na barriga, nascem e viram meninas. E conta e repete que virou uma menina. Que nasceu “lá no Canadá”. E a palavra Toronto pra ti só fazia sentido ligada ao fato do teu nascimento. Pra mim também é quase assim.

Agora tu já quer colocar o casaco sozinha, subir sozinha no beliche do teu ‘novo quarto’, descer do carro, subir no Street Car, falar de monstros e inventar tuas próprias histórias, tudo sozinha, pois meninas se viram muito bem sem ajuda dos pais.

Será, filha, que um dia eu me acostumo com o fato de tu já ser uma criança? Que fala, pensa e conclui e dança sozinha com o som da própria voz? Será que me acostumo contigo me perguntando como estou me sentindo, quando me deito com dor de cabeça ou sono…Tu se transformou numa menina cheia de empatia, afetiva e faceira. Ou sempre foi?

Tu é uma estrela cadente toda manhã a me lembrar, nos dias chuvosos, nevosos ou ensolarados, que a vida só vale a pena quando compartilhada. E por isso vim te agradecer por toda paciência e generosidade que teve com a gente nesse longo período de muitas casas, muitas andanças, muitos fusos diferentes. Nem uma gripe forte, nem uma infecção, nem tosse, nem muitos choros, nem manhas. Passamos incólumes por dois anos e meio de uma vida sem muitos anticorpos. Encaravas as viagens e mudanças com alegria e leveza. Abria portas de apartamentos desconhecidos e dizia: a casa da Luna. Pois casa é isso, onde o coração está com os outros coracões que mais ama. Com sorrisos matinais para carregar a bateria dos pais pelo dia inteiro de aventuras, tu nos amanhecia.

Eu quero escolher, mamãe” e assim me pedindo para escolher um filme e não assistir tudo que eu possa desejar, tu resume quase o lema de minha luta. Eu também filha, muito tarde entendi que é escolhendo o que se quer que podemos ser responsáveis e não vítimas de um destino pré-estabelecido por alguém que um dia sonhou por ti. Escolha. Sempre.

E hoje é Páscoa. Não é dia de Ação de Graças, mas eu não canso de agradecer. Sentido só encontro na fé de se saber abençoada com tudo aquilo que tem e do tanto que não se precisa para ser feliz.

Se tu nasceu, nós renascemos. E renascimento, ressurreição,  isso sim é bem apropriado para esse domingo de primavera com cara de outono. A mesma Páscoa que nos libertou há um ano, hoje acolhe nosso recomeço.

Olho para fora, a neve voltou a cair mansa e silenciosa…

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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