Europa Infância Viagem com filhos

De Roma, com amor…

Abril_2016:

img_5445Querida Luna,

Vou te contar como foram nossas férias na Itália, assim quando tu crescer e quiser levar teus filhos pequenos contigo, saberá o que esperar deles. 

Tu ainda não tem quatro anos embora costume afirmar que sim, os três já estão no passado e daqui pra frente é cinco pra cima. Três anos e meio é uma idade cheia de questionamentos e fofurices. Observas tudo ao redor, pergunta por que os banheiros da Itália são diferentes, por que as pessoas não falam nem inglês nem português e quer saber a razão de não darmos moedas pra todos os titios nas esquinas das ruelas em Roma. Já te contei sobre as pessoas que vivem sem teto e tu vem com lições como essa: mamãe, dá moeda pro titio, como que ele vai comprar as coisas? Como ele vai comer? Como? Aliás, “como?” é a nova onda por aqui. Mais até do que o porquê. Acho bom, pois no “como” partimos direto para ação, enquanto nos porquês ficamos no plano da ideia. Como podemos ajudar alguém? Tu quer sempre saber.

Andas acostumada a viver num país onde as pessoas são muito educadas, mas um tanto distantes, nada afetivas. Viver em Toronto te dá uma experiência peculiar de diversidade e passear pela Itália te trouxe muitas surpresas. As pessoas te paravam na rua, queriam saber teu nome: Come te chiama? Luna! Tu respondia sem titubear. E lá vinham os sorrisos e elogios as tuas bochechas e a teu nome. Passavam a mão na tua cabeça, coisa meio estranha em Toronto, onde olhar uma criança por muito tempo pode soar criminoso.

Nunca vamos esquecer a Paola, uma senhora, que nos parou no meio de uma rua em La Maddalena, na Sardenha, para se apresentar pra ti e saber mais. Ela se abaixou, disse: Molto piacere, io sono Paola. E tu, come te chiama?  Depois desse acontecido tu concluiu: – “Mamãe, todo mundo ama eu, mas eu sou de você.” Nessa frase que anotei para não perder a delicadeza de cada palavra.

Luna, dessa vez, tu acompanhou nossos dias com bastante consciência. Sabia que andaríamos em Roma sem cessar. Exigia por uma pausa no parquinho, por alguns sorvetes e brincadeiras no caminho. E nossa vida se faz dessas pausas pra te ver pegar gravetos no chão, raspar a espada nova nos muros da cidade, brincar com as flores e fontes que lá tem aos montes.

Na Sardenha, que é uma ilha enorme, tu cantava: – Vamos a la playa, ô, ô, ô, ô, ô! Assim que vimos aquele mar azul esmeralda, tu queria saltar do carro. Entrou nas águas leves daquele mar e me mentia que a água estava ótima, super boa…nada gelada. Escolhemos umas praias escondidas onde nos disseram não haver vento nessa época. Era primavera por lá, o que era maravilhoso por estar ainda vazio de turistas e não tão bom pelo frescor da água. Mas pra quem vem do Canadá, tudo é verão. Pegamos temperaturas de 25’C! Tu que gosta do frio, costuma querer andar sem casaco a temperaturas negativas, achava tudo uma beleza tropical. E lá passamos os dias ao sol. Meninos franceses bricancavam aos berros e tu ria. Antes de partir, colhemos conxinhas e pedrinhas para não mais esquecer a doçura daquele momento.

Tu come de tudo, de frutas a massas, carnes, peixes e molhos. Nunca foi difícil te alimentar em viagem e podes dizer com orgulho que jamais passou perto do kids menu, que na Itália, amém, nem existe. Na Sardenha, o foco da tua mãe era entrar pra dentro dos pratos de peixe mais deliciosos da ilha. Sofro de pensar numa refeição sofrível. Teu pai e eu pensamos seriamente em escrever um livro sobre como administrar criança pequena em restaurante fino sem perder a classe, nem passar vergonha. Entrar com um ser do teu tamanho num lugar discreto e pequeno, onde a comida é maravilhosa, exige certos cuidados. Preparo surpresas pra sequência do jantar. Tu com sono fica selvagem, como qualquer mortalzinho, e na Europa os jantares se dão tarde, diferente do Canadá. Sorte que lá, as pessoas brincavam contigo de outras mesas e te distraiam bem. A gente aumenta a dose de paciência e consegue chegar até o vinho de sobremesa sem desespero, comendo calmamente. Já saquei que o pânico dos pais altera o estado mental das crianças. Fingimos ter o controle, agir de modo preciso e conversar. Só no final, entendi que tu precisava fazer cocô, sim, com sono e com vontade de ir ao  banheiro não é fácil ficar sentadinha algumas horas. Deu certo, alivio total, todos felizes.

Voltamos pra Roma para última rodada. A espada que tu quis de presente te acompanhou até o coliseo. Nossa volta até esse ponto de Roma se deu por tua pessoa. Não cabia sair de lá sem a lembrança tua na arena dos leões e gladiadores. É claro que não entramos, era domingo e havia uma orla de turistas que dariam vergonha as filas do Beira-Rio em final de campeonato. Conhecemos o Coliseo numa segunda de manhã cedinho, só nos dois em 2011. Enfrentar filas pros teus pais é coisa inexplicável. Uma andadinha no caminho inverso da manada e já vemos benefícios. Tu vai aprender desde cedo que viajar é um exercício de escolha. Priorizamos a paz, o andar sem pressa, o ver com calma, o sentar sem culpa…o dolce far niente romano serve em nossas almas como uma roupa velha.

Andamos pela beirinha do rio Tibre e jogamos pedras ao longe. Vimos pessoas pescando e até um peixão sendo colhido das águas. Tu ficou um pouco chocada de olhar pro peixe desesperado no chão. Confesso que também senti pena como nunca senti de uma ovelhinha. La vita…mi amore. Cada qual com seu destino.

No Panteon, onde está enterrado alguns corpos reais do passado, te contei que rainhas tomavam posse no altar. E logo tu entendeu que a Elsa (Frozen)  virou rainha de Arendele ali, e o Panteon fez um sentido enorme pra ti. Tudo bem…

Amor da mãe, dessa vez, tu mal chegou em Roma e já questionou porque estávamos lá. Se ali não era nem o Canadá, nem o Brasil. Nem a tua casa, nem a da vovó. Te expliquei que gostamos de viajar e que nem sempre a cama será a mesma que a tua e que se um dia tu se chateasse com tanto movimento, poderia ficar com a vovó. Tu parou para pensar. Depois veio me dizer que queria sim, viajar muito muito muito e que não reclamaria. Teu pai riu muito da tua doce estratégia. E tua mãe, que é um passarinho, ficou feliz mesmo sabendo que aquilo era um jeito de dizer que não queria ficar longe de nós.

Luna, as viagens contigo sempre ganham  novos tons. Frequentamos lugares e conversamos com pessoas que não conheceríamos não fosse pela tua presença. Teus comentários e sorrisos nos fazem ganhar o dia. Até voar, vôos longos ou curtos, nos ajuda a tirar o foco de nós mesmos e criar histórias fantásticas pra te distrair. Quando entramos em apuros, sempre lembro teu pai: conta uma história. Inventa. Cria personagens. Tu entra em dois segundos em outro universo paralelo. Tudo fica suave novamente. A gente nunca testa nossa força criativa até ter que inventar tanta história em curtos espaços de tempo. Ter filhos nos empurra para o melhor que podemos dar, que podemo ser. Um dia tu vai ter os teus e vai optar se quer levá-los contigo e ver o mundo de novo através de seus olhos.

Até aqui, nossa escolha é essa. Pois momentos em família nos deixam mais fortes para enfrentar os dias. Carregar nossa caixinha de memórias e energias de renovação nos cutuca a ter coragem de novo. E sempre. E tu é uma criança faceira e simples de lidar, exposta que é a vida sem filtros, ônibus, metro e calçada. Desse jeito, tu aprende a observar as pessoas e entender tuas emoções, como reagem os seres humanos a simples coisas da rotina. Viajar é um constante coçar dos olhos. No fim tu colherá abertura de olhar e abundância de amor: com pé na estrada e a cabeça nas nuvens, para manter a leveza do viver.

Com amor, mãe.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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