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Depois da escola a vida corre pra onde?

Quando era criança adorava ouvir que os jovens eram o futuro do país, o futuro do mundo. Olhávamos os adultos como pessoas razoáveis que deveriam saber o que estavam fazendo com nossas vidas. Pais, professores, a sociedade em geral, todos respondiam pelos atos daquela geração. Cheguei a sentir o peso do momento que chegaria a minha vez de ser a tal da adulta responsável tomadora de decisões. É simples quando ainda se é apenas filho, acusar ou agradecer aos pais pelas escolhas que tomaram priorizando ou não a nossa educação, nossa auto-estima e bem-estar nessa vida. 

O cenário começa a ficar menos claro quando nos tornamos pais e chega a nossa hora de bater o martelo sobre pequenas, mas impactantes decisões sobre a vida dos nossos filhos. Que tipo de educação meu filho terá fora de casa, no sistema formal? Eu quero algo tradicional, alternativo? Quem somos nós e o que queremos proporcionar de visão de mundo para nossos filhos? O que antes era preto no branco, entra para área cinza. E depois, volta a ficar nítido, quanto mais nos aproximamos do que nossa alma em essência acredita enquanto valor. Mas explico. Educação pra mim não é algo pronto e acabado. Lê e executa. É um criar constante baseado no afeto, não na reverência cega. Algo mais ligado à criação e menos à obediência. Uma ideia de movimento e menos de coisa estática, sentada e calada. Algo que ajuda o indivíduo a se conhecer e manifestar o que veio fazer na terra. Encontrar essa luz é a parte mais fundamental da jornada. 

Quando penso em educação logo lembro das breves lições do Piaget, da minha mãe, do Paulo Freire, do meu pai, do Krishnamurti, dos meus avós, do Einstein, da natureza…e do Buda. O que todos eles tem em comum? Afeto, imaginação, enfrentamento do medo, música, sol e nuvem, autenticidade, contos de fadas e histórias folclóricas, empatia, criatividade, questionamento, aprendizagem prática de vida, pensamento crítico. 

Para que afinal passamos anos sentados nos bancos escolares? Para onde o rio da vida escoa? Será que aprendemos coisas úteis na escola? Será que as perguntas que fizemos não deveriam ser alteradas na origem?

Educar para a maior parte das pessoas pode ser repetir os ensinamentos que temos recebido até aqui. É pegar uma criança que floresceria bela e selvagem se fosse deixada a cargo da natureza, e colocá-la num forno que a moldará até de lá sair um adulto típico, ajustado a um mercado de trabalho que exige determinadas funções, obediente e de preferência não muito crítico de sua própria situação na vida. Num mundo que precisa de cabeças que executem e não reflitam.

Desde o forno serão incutidos valores e prioridades de formas bem sutis, para que não fique evidente o óbvio ululante: que toda educação carrega em si uma ideologia, mas não aquela a que se referem os operadores das máquinas que nos regulam. Se trata de uma ideologia mascarada que sustenta um sistema. Ao que parece falido e deprimido, precisando não de ajustes, mas de total transformação.

Já parou para pensar no porquê pensamos da forma que pensamos? Por que vivemos de comprar o que compramos? O pensar livre, sem medo do pré-formatado ou de imagens prontas, gera a criação de novas realidades. Guiar o aluno pela vida estimulando a clareza de raciocínio, sua auto-estima e equilíbrio emocional, a empatia com as pessoas e natureza ao redor, empodera sua iniciativa de ação para mudar o mundo, para mudar a si mesmo antes. E sim, adoraria poder ver a próxima geração fazer-nos o favor de mudar esse mundo injusto que iremos deixar. 

Injusto, bobo e empoeirado. Um mundo no qual quem não passa fome nem privação mal consegue definir o que fará de sua vida sem medo. Medo de julgamentos, medo de mudar de vida, de ser livre para seguir o que lhe faz bem, pois sequer abrimos tempo de descobrir quem somos. Esse mundo tolo no qual as prioridades estão fatalmente invertidas, onde o tempo de presença com as crianças, seres em formação, é banalizada. Onde a ilusão de segurança é vendida em promoção. Estamos sabendo que a escola deveria preparar para a vida e a vida tem fim com a morte? A escola nos ajuda a melhorar nossos relacionamentos? Nos ajuda a escolher um futuro que caiba com nossa individual necessidade de alma? Ajuda com as dificuldades que ainda nem foram criadas, com o novo? Sem criatividade, sem irreverência, não haverá meios.

Luna completará 4 anos daqui a alguns meses e deve começar o jardim da infância nesse ano letivo que inicia em setembro no Canadá. Já estava matriculada numa outra escola desde fevereiro, pois logo as vagas somem. Depois de bater a cabeça e repensar, remexemos os planos e optamos por um modelo educacional independente. Uma escola baseada em valores que são de fácil encaixe em nossa vida cotidiana simplesmente porque é uma continuação do nosso modo de ver o mundo. Sem muita tecnologia, sem pressão, dentro da natureza, fazendo pão, observando as estações do ano e o céu, sempre com amor. Mais do que se perguntando qual o significado da vida, colocando significado em tudo que se faz, tomando pé e responsabilidade pelo estado mental que criamos.

Será uma tentativa. Algo que nesse momento já me deixa aliviada só de saber que a casa se prolongará até a escola, onde tudo é de madeira, pensado e planejado para que a criança possa brincar, interagir e aprender coisas essenciais para a vida, muito alem do abecedário. Por detrás de cada atitude, há um pensar que cai suave no meu coração. A professora vem em casa para conhecer a família e deixar a criança saber que os pais confiam nela e por isso ela também poderá confiar. 

No meio da visita das crianças do Junior Kindergarten à sala de aula, depois de ter feito pão com outras crianças, Luna me fez abaixar e disse timidamente ao pé do meu ouvido: “Obrigada, mamãe, por essa escola nova.” Sim, ela já tinha ido visitar a escola tradicional onde iria estudar. Em menos de 2h a criança sentiu a total diferença de ritmo, foco, volume de voz e ambiente. 

Assim, em pequenos passos desenhamos uma nova história em poucas semanas de decisão. Tudo revirado e agora apaziguado. A melhor decisão é a tomada, já diria minha sogra. E segue o baile da vida até o início das aulas. Volto para contar de todas as sensações que o tal Rudolf Steiner me permitiu vivenciar. Waldorf, deixe-nos entrar. Obrigada, querido universo!

Ps.: tinha lido no The Guardian e hoje a Josie querida me enviou em português esse texto do El País sobre esse tipo de escola e a razão pela qual o pessoal do vale do silício está optando por modelos assim.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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