Infância

Ela não quer ser mais bebê

Janeiro_2015_brasil:

Luna flor,

A era do pacotinho pós banho teve fim por aqui. Um fim cômico e emotivo. Explico. Desde que tu, pequena cidadã nasceu, temos por hábito enrolar seu corpinho mignon numa toalha gostosa, nada felpuda depois de cada banho no fim da tarde. Branquinha como a primeira neve da manhã. Assim passaram os meses. E os anos. Os dois primeiros e velozes anos se foram. Eis que nossa biscuit cresceu. Agora tu só sabe dizer que é uma ‘menina’ toda vez que calhamos em insistir em alguma prática que te lembre a bebezitude.

Ontem, dia do aniversário de São Paulo, desembocamos na Av. Paulista no fim da tarde, vindos do interior. Faz muitos meses que tu anda conosco pelas estradas do mundo e tira de letra o nomadismo. Tens alma cigana e espírito desbravador.

 Algumas horas depois de chegar na pujante capital, tu já se banhava como uma moça no chuveiro de uma grande amiga-irmã.  Nada de mamãe ensaboar, nada de ajuda. Tu agora é uma menina e sabe como tomar banho, como olhar para cima e não chora mais quando cai o sabão no olho. Pede a toalha.

No final do banho, a hora mais fofa do nosso dia, em que um enrolava e o outro pegava e afofava de beijo, se foi, sem aviso prévio. A dona menina saiu do banho e começou a dizer: Não pacotinho, papai…menina…Luna menina...Teu pai sem entender nada se afastava e voltava tentando te tirar do box ensopado. Tu recuava furiosa. – Menina! Menina! Daí que sugeri: quem sabe só alcança a toalha e vemos o que acontece. Tu se auto-empacota, nos olha com orgulho e diz: Sou menina, Pacotinho- menina. 

Saiu do banheiro um tanto molhada, mas toda confiante enrolada no manto branco que virou uma capa de princesa rebelde. Sem mais pacotinhos pra ti, sem mais afofamentos com cheirinho de sabonete de bebê para nós. Foi o final de um ritual que amávamos compartilhar.

Hoje tu repetiu a peripécia como quem a praticou anos a fio. E eu que tinha esperanças que tu esquecesse o banho de ontem e voltasse ao pacotinho do amor. Ledo engano. Cheguei a perguntar se podia pegá-la no colo, disse que não, solenemente, sem remorsos. Brinquei que ia chorar. Tu disse que acabou, de um jeitinho bem escorpiano, daquele que eu uso para te dizer que o picolé chegou ao fim. Tua primeira vingancinha risonha. Acabou pacotinho mamãe!

Os ritos servem para isso. São como pontes que atravessamos para não mais olhar para trás.

Tu, minha Luna, não quer mais ser bebê. E me derreto de orgulho por  ter se tornado a doçura que é, e me derreto de novo e muitas vezes por dia de ternura por ver o desabrochar de um ser bem humano.

Meu Deus, quem mandou o tempo correr nesse aspecto tão suave da existência? Hora tão banal, rotineira, habitual e faceira. Mas a vida tem dessas, é feita de horas, de ciclos e rituais. Passamos por tantas delas que desaprendemos a perceber seu poder arrebatador, sua finitude. São as crianças que nos sucedem que precisam nos ensinar constantemente que tudo se transforma, que as fases vão para nunca mais voltar e que a beleza do amor parental está na arte da entrega e do desapegar, no amar e deixar ir, deixar crescer, deixar partir, deixar mudar. Ainda bem filha, ainda bem que não haveremos de ter um arrependimento de ausência sequer. Fomos e somos só presença ao te ver brotar menina-flor.

Vira, menina, Luna.

Vira menina porque ser menina é uma das coisas mais incríveis e poderosas que o universo já viu.

Honre a meninice e as mulheres. Só elas são capazes de gerar mais vida e mais transformação.

Com amor,

Mãe

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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