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Eu quero fazer cocô!

Novembro_2015:

Doce Luna,

Faz tempo que não escrevo uma carta só pra ti. Preciso te contar o que aconteceu quando voltamos do Brasil. O tal do desfralde que era minha preocupação antes de virem outras maiores me pegou em cheio no meio desse verão. Fui lá eu seguir as regras do mundo, ler o que podia e me aconselhar com mães mais experientes: como fazer? Assim e assadoo…e zas. Ou: espere o tempo dela. O melhor conselho é sempre o mais complicado de executar. Como esperar? Sei bem que ninguém vai à festa de 15 anos com fraldas, mas eu sou tão desencanada com algumas coisas que às vezes preciso focar pra realizar mudanças. Essa era uma delas.

Desde julho tu já te arrisca a ficar sem fralda, mas um mísero dia, no meio da sala, bem em cima do tapete branco, tu deixou escapar xixi e ficou tão envergonhada que na hora me pediu para pôr as fraldas. “Eu quero fralda e pronto. Não quero mais colocar calcinhas.” Começou aquele samba do crioulo doido, um dia querendo fazer xixi no banheiro e outro na fralda e dá-lhe “cada xixi one dolar”.

Minha maior preocupação é que tu fosse querer tirar a fralda logo no inverno daqui. Pensa! Ter que trocar roupas inteiras por baixo da roupa da neve por conta de algum acidente. Bom, daí  lembrei que iríamos passar novembro todo no Brasil, país tropical abençoadao por Deus e bonito por natureza masquebeleza…e nada. Chuva e mais frio e loucura de eventos no Rio Grande…óbvio que não tivemos tempo de pensar nesse detalhe. E até privadinha especial a trouxa da tua mãe levou na mala. Esperança, fia…

Mas como tudo está bem quando acaba bem, na paradinha especial que demos em São Paulo antes de pegarmos o último vôo pra Toronto, ficamos na casa do Richard. Lá, tu mal entrou e lembrou que naquele apê mágico projetado pela tia Carô, tinha uma banheira de madeira. Sim, um ofurô. Foi te espraiando e já queria banho com espuma no estilo novela das oito. Após esse evento chiquetoso, tu quis fazer xixi na “privadinha.” (assim apelidamos, pois o pessoal que não é gaúcho mal sabe que lá no sul a gente chama o treco de patente…mas isso é papo pra outro post)

Uma vez no trono,  dona Luna, tu fez o tal xixi, conversou amenidades – e eu abaixada olho no olho pra dar força, porque mãe é pra essas coisas – começou a fazer cara de quem vai ser feliz…e larga ‘plum’ um bostão! Sério! Teu primeiro cocô na privada foi surpreedentemente imenso e mal acreditei que um dia limpei tua bundica. Tu desceu do trono, checou e disse: falei que queria fazer cocô! Sorriu e puxou a descarga. Nem se apegou. E eu tentando lembrar do Freud e da fase anal…fiquei como uma besta dizendo: Luna, volta aqui dá tchau pro cocô… “- Ah, já foi mãe…vou fazer outro pra você vê” (às vezes tu me chama de tu e outras de você – natural por aprender gauchês e paulistês junto).

Ah, então tu pensa que pra mim foi um alívio monstro? Não. Ainda tinha um vôo pela frente e se tu se embestace de não querer colocar a fralda a gente ia ter problema. Mas não deu. No aeroporto tu fez xixi na tal privadinha das crianças e depois coloquei a fralda e te expliquei que somente à noite tu a usaria.

De volta pra casa, ainda custei para crer que a coisa tinha de verdade ido pra frente. Desfralde é como o desmame, só se comemora depois de uma semana. Nem sei, mas inventei essa. E demorou pra tu fazer cocô em casa. Teu pai que mal acredita no quanto tu cresceu e se sapecou nesse mês está embasbacado com tanta autonomia. Daí que pra completar tinha esquecido de comentar com ele ou nem valorizei o cocozao que tu fez no Brasil.

Era noite e fui tomar banho. Tu fez xixi, limpei e te pedi licença, já que iria ocupar o sagrado refúgio das mães. Tu me olhou e largou: vai no outro banheiro tomar banho, porque eu quero ficar nesse. Azzzaaa…era só o que me faltava, os poste mijando nos cachorro (pensei sem os plural porque gaúcho que se preza não fala os plural). Tranquei o pé. E tu se foi bem braba. Entrei no banho e fui interrompida por teu pai faceiro me contando a história que estava se passando no outro banheiro: “amor, amor…olha só, eu fui ver o que ela ia fazer, ela entrou no banheiro do quarto, me pediu pra sair, me ofereci pra ligar a luz, ela disse pra sair, ofereci pra ajudar a colocá-la na privada porque lá não tem banquinho, ela mandou sair e disse que era grande e que precisava de pri-va-ci-da-de. Aimeudeus. Daí ela pulou e ligou a luz, sentou sozinha quase afundada, e fez um cocozao bizarro. Saiu puxou a descarga e me gritou pra ir ver. – Olha pai, um cocozao! Eu que fiz, mas já foi. Vou fazer outro pra você ver. E lá foi subir de novo e pimba!” Pois é pensei comigo, tu já sacou que vai fazer merdancinha pro resto da vida e que não carece de se apegar a nenhuma obra até aqui. Foi uma saga, mas entendi que tu não tava só te fresqueando quando pediu pra ficar no banheiro, dessa vez era sério e quase te impedimos. Ô dó.

Desde então tu não precisa mais quase lutar pra fazer cocô, já vai solita ao banheiro e grita pra te limpar. Só desenvolveu um hábito engraçado de ficar puxando a descarga a cada vez que faz um pedacinho…e reclamei pedindo pra ver a obra toda. E tu respondeu que da próxima vez…

E assim foi como o desfralde aconteceu contigo, minha flor. Meu desejo sempre foi que tudo fosse lento, gradual e tranquilo. Odeio a ideia de tu ter prisao de ventre e problemas com esfincter como eu tive e  grande parte das mulheres um dia já tiverem. É um probleminha no gênero, verás…os homens fazem a coisa com uma facilidade e rapidez de dar inveja. Essa é só uma delas. Te acostuma. No más, espero nunca te incutir loucuras e neuroses com os banheiros sejam eles públicos ou não. Se tu ficar fresca, vou te contar detalhes de como era pra fazer isso lá fora, no campo, sem banheiro e sem luz elétrica. Tu vai preferir ver filmes indianos. Quanto aos públicos, sempre é de rir imaginando a cena de uma mulher fechando a porta e cada detalhe que acompanha o ato até sua conclusão. E aqui no Canadá até que eles são limpinhos, vamos ficar com o básico de preocupação sobre higiene sempre pensando no Nietzsche, no teu avô e na teoria que eles têm em comum:  o que não nos mata nos fortalece. Os micróbrios não são páreos para nós.

Superado o desfralde, uma batalha por vez. E que vengam todas as outras fases marcantes da tua pequena vida, nós vamos subindo essa escadinha degrau por degrau, sem neura, sem medo e sem pressa. 

Com amor,

Mãe

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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