Gravidez

Gravidez, aborto e perda. Vamos falar de perda?

Maio_2015 Toronto:

Há um mês, perdi meu segundo bebê que iria nascer no final do ano. Antes de sairmos de férias descubro que estava grávida de algumas semanas. Alegria! A viagem pra Sardenha se tornou mais emotiva e significativa pra nós três por conta do futuro bebê. Pensávamos como se fôssemos quatro por onde quer que andássemos. Na volta, lancei meu livro aqui e passei a lidar com aquele mal estar clássico do comecinho de gravidez.

A coisa não foi longe. Tive um aborto espontâneo e só descobri o que estava por vir, porque vi um pouco de sangue dez dias antes. Estava com onze semanas de gestação e só faria uma ultrassom quando terminasse o primeiro trimestre. O que é comum aqui no Canadá e soa um pouco grosseiro para nós, brasileiras. Só somos tratadas como grávidas-grávidas após sair da zona de risco maior dos 3 primeiros meses. 

Minha primeira consulta com a midwife seria com 11 semanas e alguns dias. O anúncio do aborto se deu assim: fui até um médico de família num walk-in clinic, uma espécie de posto de saúde em Toronto. Ali informei ao plantonista que estava desconfiada de que algo não ia bem e queria checar com um ultrassom. Ele hesitou, explicando que poderia ser só um sinal normal naquela fase de gravidez. Insisti. Lá fui eu fazer o exame com uma técnica não muito simpática, nem muito comunicativa. O que também é esperado aqui. O técnico não pode dizer absolutamente nada acerca do que vê na tela. É muito angustiante ver a criatura batendo na tua barriga atrás de notícias, fazendo caras e bocas e no final, nenhuma pista.

Volto eu para o walk-in clinic e forço a barra com as secretárias para que peçam o exame o mais rápido que puderem, já que numa sexta-feira pre-feriadão, o ritmo já alivia muito. E não queria entrar o feriado, viajar, sem saber do resultado. Sucesso. O resultado aparece e me chamam pra falar com o médico. Nessas alturas, meu companheiro de aventura já estava devidamente avisado e tinha saído do trabalho para ficar no parque com a Luna. Aqui, sem ajuda nem família, não tem choro nem vela. 

O médico foi até gentil em dizer que não era garantido o fim da gestação, pois teria uma chance em seiláquantas de ter sido ovulação tardia, o que explicaria o tamanho ‘errado’ do bebê. Mas se tem uma coisa que gosto direto e reto é isso: informação sobre o estado real de saúde. Sem batimentos, foi o que li. Perguntei o que esperar. Ele me olhou com pesar e disse: miscarriage. Um aborto espontâneo que poderia ser acompanhado no hospital ou não. A ordem era esperar e ir na semana seguinte tirar sangue e medir hormônios. Como sou teimosa em ouvir minha intuição, ignorei a ordem de tirar sangue ou voltar ao hospital. Já sangraria o bastante. Rezei para que tudo viesse logo e terminasse o quanto antes. 

Sai de lá meio estranha. Sem saber ao certo o que sentia. Não é tão óbvio quanto parece elaborar uma notícia de perda assim. Estava quente e florida a avenida, resolvi andar ao invés de pegar o metrô para cortar caminho. O vento ajuda a refletir. Não senti vontade de chorar ou tristeza profunda de imediato. Olhava para tudo ao redor e de novo me sentia como se tivessem me trocado os olhos. Liguei pro pai do bebê e avisei que não vingou, tentei ser emotiva, mas tava forçando. Ele ficou falando comigo preocupado…mas eu só conseguia ser eu, agir com ironia e sarcasmo, como faço regularmente. Um pouco de fúria para demonstrar que não agrada nem um pouco estar sentindo enjoo ainda e alguém dizer que a gravidez teve um fim. Como assim, não cresceu? Pediu pra sair? Ao mesmo tempo pensava que podia comer um sushi naquela noite sem culpa, voltar a beber qualquer coisa que quisesse e podia comprar uma bicicleta e sair por ai o verão inteiro. Tentei repetir que não era a hora e a vida sabe o que faz da gente. Julgamentos à parte, pois não pensem que eu mesma não julgo a quantidade de pensamento insano que me invade a mente, lá estava eu, andando pelas ruas de Toronto, lépida e não faceira. Mas também não arrasada como esperava estar se tivessem me contado algo parecido. 

E pra não dizer que tudo é estado de negação, lembro bem das muitas piadas que fazia e pensava durante o trabalho de parto da Luna, no qual não recebi anestesia alguma. Humor, mesmo negro, ajuda a dilatar e relaxar também. Conseguia gargalhar entre contrações. Fazer a doula rir e olhar perplexa pra gente como quem diz: vocês não são normais. Sim, não reconheço o que é ser normal. O que seria a reação normal? Precisava pôr a cabeça em ordem para esperar o fim daquele processo. Projetei o inverno, dezembro, o natal sem bebê e o que diria pra Luna. Difícil, pois tudo te faz crer que a gravidez continua em curso.

Para terminar o relato de aborto natural, te conto que em menos de dez dias, sem sequer ver um médico, aguardei em casa para o que seria a  maior sanguera da minha vida. Foram dias de vermelhidão total. Sentia que ia manchar a casa toda. Desmaiei na primeira madrugada de fraqueza. Não foi divertido.  Nem tão dolorido fisicamente como imaginei. Algumas cólicas dias antes de tudo descer sem pausa e sem dó. Tomei advil e repousei com bolsa de agua quente pra cima e pra baixo. Rezei por mim e pela possível alma que me habitou. Agradeci por tudo ter acontecido na segunda gravidez e não na primeira, o que me pareceu reduzir muito a dor da expectativa. Ri e me emputeci com a raça humana e com as razões de serem as mulheres as que sempre levam no lombo essas situações mais extremas. Chorei muito dias depois quando as fichas caíram junto com a dose de hormônio cavalar da gravidez que desapareceu do meu corpo. Uma semana depois do aborto espontâneo, voltei a um plantonista e pedi a requisição de novo ultrassom. Confesso que ainda não fiz. Fujo de médicos e exames. Vou observando a natureza, pensando na evolução da espécie e pedindo conselho para amigas que passaram pela mesma situação. Ouço em detalhes. Colho esse arsenal humano de histórias e acalmo meus medos. No más, tudo foi voltando ao normal.

Falar sobre perda é normalmente desconfortável para quem comunica e não menos desconfortável para quem ouve a história toda. Ouvimos o que somos, o que já temos por dentro, o que faz sentido pro coração. Então, passei por situações de interrogatório sem orelhas, perguntas insistentes sem real escuta. Muita expectativa com o modo que eu deveria estar me sentindo no momento e menos entendimento sobre o modo que eu de fato estava encarando. Como se houvesse o jeito certo de sentir dor, de se conectar com teu corpo, alma e planos futuros. Um veloz preenchimento de lacuna emocional com imagens já criadas pelo cérebro do ouvinte, como se aquilo fosse de outro modo muito diferente e intolerável. Pensei no quanto devo ter feito isso irrefletidamente com amigas queridas. No quanto impomos ao outro o jeito ideal de agir para evitar mais sofrimento. 

E houve muita ajuda e abraço e honestidade sobre o que era natural esperar do corpo e da alma. O que sobrepõe na verdade qualquer situação anterior. É assim que as mulheres se ajudam, a parir, a ganhar e a perder. Qualquer comentário como: “nem imagino o que tu esteja passando” é melhor do que “mas não é normal tu já estar se sentindo bem”. Repensemos, sempre, pra mó de colaborar com a evolução da nossa espécie. Pronto. 

E porquê resolvi escrever sobre isso? Por que prometi num grupo grande, de brincadeira, no dia do lançamento do meu livro em Toronto. Alguém deixou escapar que eu estava grávida e sorri confirmando. Todas tocaram minha barriga e comentei que era cedo demais para garantir. Elas tentaram me confortar dizendo que naturalmente tudo daria certo. E foi ai que veio a tona o tema. Alguém falou do desagrado de contar antes dos 3 meses, outra afirmou que era besteira, pois a perda deveria ser compartilhada com aqueles a quem importa o bebê. Discussões de lado, falei que se perdesse seria sim um momento para dividir a história com outras mulheres até todas entendermos que falar de experiências dolorosas é bem importante, embora não tão simples. E existem sim diversas formas de encarar qualquer vivência. O mais importante é como passamos pelo fogo. A forma que vamos sentir sua ardência, sua força e como vamos sair dessa experiência. Amém.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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