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Liberdade é assim, movimentação.

Filha, 

Essa frase não é minha, é do Riobaldo, meu amigo imaginário. Mas movimentação só é liberdade mesmo quando tenho tempo para prestar atenção no vento que sopra no rosto. E sempre fui atenta ao vento. Até que há 1 ano e meio, não tive mais a mesma atenção. Tive um bebê. Tu nasceu. E de tudo de lindo que um filho traz, ele também traz uma certa confusão de identidade. Verás um dia.

Fiquei perdida de mim. Natural, fui e sou a mãe que quis ser. Um ano foi bastante para virar meu mundo, pra ti é uma vida, tudo que tem até aqui. Pra mim é só um ano dentro de muitas dezenas dos quais venho colecionando. Com 33 anos, perdida, me acho. Tu tão brotinho, se perco esse um ano, nunca mais recupero. Por sorte, os ciclos se abriram e se fecharam natural e satisfatoriamente.  No regrets so far.

Porém, há porém…Como sobrar tempo pra mim? Ainda mais considerando uma maternidade fora do país de origem, sem ajuda, uma maternidade nada terceirizada. Os cacos dela, colho numa face marcada de beijos babados de amor mais puro. Tu, Luna, é um doce. Não sei o que vai escolher no futuro, se será mãe longe de mim- como avó- para te ajudar. Se assim for, verá como é intenso, forte, bom e complicado cuidar de um bebê sozinha e em dupla com o amor que estará ao teu lado. Um casal com um filho não é uma família é uma unidade de sobrevivência, já disse um sábio escritor. Só agora vejo o papel fundamental das comunidades mais antigas e das famílias. Mas estou divagando…

Vim aqui para te dizer que estou feliz por esses meses todos que passamos grudadas…feliz porque agora é uma mocinha grande e independente, forte e desmamada, faceira, beijoqueira, dançante, caminhante e falante. 

O bom do tempo é que ele passa. O ruim do tempo é que ele passa. E passou. E estou sentindo aos poucos uma vontade de me encontrar mais, de sair mais para observar meus pensamentos, para ver o mundo com olhos distraídos e não com a super lente cristalina e afiada de olhos maternos. 

Quinta de noite sai para encontrar amigas, um confraria de três, secreta e altamente arejante para minha mente e alma. Horas do tempo só pra pessoa que sou, individual, que mal sabe se definir ainda. Saí a andar pelo centro antigo da cidade antes de encontrá-las. Um mocinho da ONG Médicos sem Fronteiras, daqueles com a pastinha na mão, sorriso no rosto, disposto a te contar historias e te engajar na causa humanitária, me parou na rua. Queria apenas um pouco do meu tempo, um pouco da minha atenção. Eu, tão contente com a liberdade momentânea, respondi sorrindo e implorando: 

Meu querido, sei o quanto tudo que quer me dizer é importante, mas sabe o que é…tive um bebe ha um ano atras! Já teve um bebê?

Ele: Não me diga isso. Você não é casada e não tem filhos!

Sim sou casada e sim tenho um bebê em casa e sim preciso correr para aproveitar horas prontas so pra mim. Horas para ser simplesmente eu e o silêncio. Eu e a cidade. Eu e meu sonhos.

Ele me olhou piedoso e bem humorado.

Deixa eu ir? Please!! Meu tempo é sagrado como tua causa. Uma mãe é quase uma causa humanitária para si mesma.

Go!!Go!! Enjoy yourself! Disse abanando teatralmente e fazendo cara dramática de filme de época. 

Quase gargalhando…atravessei a rua correndo, últimos segundos para o sinal fechar. Foi uma cena boa num fim de tarde alvoroçado, bem num cruzamento agitado da cidadela. Quase dia das mães e eu querendo saber quem sou. Percebeu, minha filha? Como a vida é louca e banal. No fim, horas e mais horas dedicadas a mim para voltar para casa antes da meia noite com uma vontade louca de te acordar, te encontrar de banho tomado. Uma saudade do teu cheiro dorminhoco. E vejo teu pai no sofá, lendo. A casa silenciosa. E tudo se encaixa novamente na toca do afeto.

Quanto a mim e minha perdição do ego como eu conhecia antes, não se preocupe se sentir exatamente igual na tua vez de passar por isso. Não há nada resolvido nesta vida, minha flor, é só o começo de uma longa busca interrompida e tu não tem muita responsabilidade nisso.

Siga sendo essa doçura de menina autêntica e alegre, que meu mundo será o céu, no dia das mães e em todos os outros.

Toronto_Maio de 2014

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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