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Minha mãe e a rede invisível

Dia das mães:

Queria crescer rápido.

Comer jornais e revistas com os olhos como fazia minha mãe.

Queria discutir ideias como ela, ser afiada e cheia de argumentos.

Queria entender de política, economia e futebol, como minha mãe.

Queria jogar bola e dirigir bem.

Queria saber cozinhar coisas gostosas exatamente como a mãe.

Queria ter a bravura para enfrentar meus medos e exigir meus direitos com a coragem dela.

Queria aprender a amar, ler pessoas e distinguir o certo do errado.

Queria ter amigas de toda vida, como minha mãe tinha.

Queria respeitar meu tempo e saber construir meu valor.

Queria defender crianças e saber curar apenas com beijo e benzedura na testa.

Queria ler Paulo Freire, Rubem Alves e Piaget, pois ela falava neles.

Queria ter a resistência dela pra criar três filhos e passar o dia no colégio rodeada de tantas crianças.

Queria acreditar no que ela dizia sobre as mulheres terem que pegar as rédeas do destino e escolher sua vida.

Queria me tornar sujeito, nunca ser objeto.

Queria ter orgulho de ser mulher, símbolo de força, como minha mãe.

Queria entender como ela nunca fraquejava, nunca chorava.

E foi aí que numa noite, vendo jornal na tv, a vi com os olhos marejados de lágrimas, feição desolada. Perguntei por que chorava.

Ela explicou que as mães do mundo todo formavam uma rede invisível e se uma tragédia afetava uma delas e seu filho, alcançava a todas. Só as mães sabem o que é sofrer e amar sem medida. A mais frágil e mais forte criatura viva, a mais vulnerável e mesmo assim mais impetuosa, é uma mãe. Pois ela nunca mais vai agir pensando só em si mesma.

Só entendi de verdade sobre essa rede quando nasceu minha filha e me vi chorando madrugadas a dentro pensando em mães recém-nascidas e seus bebês sem assistência, sem acolhimento, comida ou afeto. A rede invisível passou a existir na minha vida.

É preciso muita força para criar mais força, muita vida para criar mais vida e muito amor para criar mais amor.

Minha mãe plantou a rede dentro de mim.

Queria ser como ela.

Agora, só queria que ela soubesse.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

1 comentário em “Minha mãe e a rede invisível

  1. Leio bem isso no auge do puerpério, minha filha com sete semanas e um dia. Sejamos rede. ❤

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