Infância

Pula filha, pula!

Quando era adolescente gostava muito de chegar antes da hora nos treinos no ginásio do EDC, escola das freiras da minha cidade natal, lá no Alegrete. Único compromisso que era mais que pontual, diria minha mãe. Questão de interésses, diria o Brizolla em minha defesa.

 Jogava volei, handebol e futebol de salão, campo e areia naquela época. Amava treinar para campeonatos fora da cidade. Como contei, chegava cedo. Naqueles instantes em que a quadra ficava meio vazia. Nesse intervalo sagrado, costumava ir para o meio da quadra, olhar fixamente a cesta de basquete e tentar acertar a bola de volei nela, redondinha, com um chute. Veja bem que mistura esportiva. Mas porque raios vim te contar isso agora?

Por que ali, naqueles minutos, tive contato com a teoria da mentalização positiva e seus efeitos. E da negativa também e seus resultados. Visualizar é o segredo. O segredo que me foi revelado na década de 90.  Mais do que qualquer filósofo ancião ou moderno pôde me ensinar, aquela sesta de basquete me ensinou. Ela era o alvo da minha vida. Quando eu acreditava que ia acertar, pimba! a bola entrava redonda. Quando duvidava da possibilidade, a bola batia na madeira e voltava. Ali entendi que das duas maneiras estaria certa. Quando pensava que tudo podia dar certo e quando pensava que tudo podia dar errado. O que determinava o resultado era meu pensamento nos milésimos de segundos antes da bola pipocar no meu pé direito. Ganhei muitas apostas com meninos da minha idade afirmando que acertaria a bola na sesta com um chute daquela distância. Sempre acontecedeu da incredulidade alheia me gerar uma teimosia instantânea. Fincava o pé. Confiava e levava a fama de confiante o que me dava mais confiança.

Confiar pra mim sempre foi determinante. Lembro de subir e subir em árvores das quais não tinha a menor ideia de como iria conseguir descer. Uma vez, numa fazenda também em Alegrete, com amigos, queria me isolar um pouco da muvuca da gurizada e subi numa árvore centenária. Subi até o quanto pude. Fiquei lá horas. Até que decidi descer. Era fim de tarde, o sol estava se pondo. Ninguém sabia que eu estava lá. Foi nessa hora que descobri que o mesmo galho que te põe pra cima, não necessariamente é seguro para te fazer descer. E as distâncias e forças que fiz para subir não seriam da mesma valia para voltar. Deveria criar um novo caminho e minha perna não alcançava o galho abaixo. Um erro e eu estaria espatifada no chão de uma altura razoável. Quis gritar. Me achei besta, imbecíl e estúpida e burra…e sei lá mais o que. Pensei no Chapolim Colorado lembrando que não havia ninguém para me defender. Pensei nos bombeiros de Alegrete, se eles iriam até uma fazenda salvar uma problemática mental que resolveu subir numa árvore. Se eles salvavam gatinhos, por que não eu? Quis chorar. Não. Até chorei de medo. 

Foi quando entendi que chorar e ter medo iriam me fazer cair de lá. Então, aquilo era meditar. Avaliar o presente, mudar o sentimento e seguir em frente com o inevitável. Com fé e coragem. Foi o que fiz para descer. Confesso que rezei, porque nessas horas sempre penso na Santa Rita que é de tanta confiança da minha mãe. Ela nunca falhou comigo, seria como falhar com a filha de uma fã. Com a ajuda da santa lá fui eu… descendo, galho a galho, confiando, respirando. Até que meus pés pisaram a terra firme. Nunca esquecerei da sensação do último salto para terra firme. Firmeza. Consegui. Alguém saiu da zueira da piscina e veio me encontrar. Perguntou por que estava com uma cara estranha. Não contei a missa inteira. Com quinze anos não conseguia admitir meus medos nem pra mim mesma quanto mais para um guri da minha idade. 

Contei essas duas sagas: da cesta de basquete e da árvore para te dizer que é preciso confiar. Tu pode aprender com alguém quando pequeno ou pode aprender sozinho quando decidir. Mas sem o elemento da confiança tu pode virar um contador, gerente um bom empregado, além de ótima pessoa. Tu pode ser várias coisas na vida, mas nunca poderá criar nada se não confiar. Seja um caminho novo, seja um negócio. Na arte, na arena do empreendedorismo então é preciso muito contato com o medo e depois com a coragem para criar algo.

Por isso confiar é bom. Vinte anos se passaram desde o episódio da árvore e do grande medo. Aqui me encontro. Mãe quase virando os 35 anos. Tendo que fazer escolhas a cada minuto em prol de mim mesma, minha família e minha filha. E tudo é processo criativo. As crianças não são boas em nos ouvirem, mas prestam muita atenção na forma como agimos, naquilo que fazemos e no modo que encaramos as situações na vida. Elas são boas em copiar esses comportamentos. Por isso, atenção. 

Então Luna me pergunta: – Posso pular, mamãe?

E respondo de peito aberto: Claro que pode! Confia, filha, pula! Tu consegue.

Ela pula, bate as mãozinhas que acabaram de encostar no chão. Olha pra frente e sorri orgulhosa de si mesma “Eu posso. Eu sou menina. Sou grande.” 

Respiro fundo, porque se ela for de cara no chão a culpa é sim um pouco minha. E se tu já leu a fundo esse blog já deve estar sabendo que a Luna caiu do sofá e conseguiu a façanha de quebrar um ossinho do cotovelo, foi operada pela peripécia e passa bem desde maio. Mas poxa, maio foi ontem. Fui alertada para que ela não caia de novo com o mesmo braço. Pense!

Como evitar a queda, oh senhor! Dizendo para ela não pular, não correr, não brincar? Não conseguiria mesmo que acreditasse. E não acredito em cerceamento da liberdade pelo valor segurança. Sim, são nas pequeninas coisas que aprendemos valores, prioridades, ideias que vão reger nossa vida. O hábito é um santo ou um demonio. Se te habituar a temer, desconfiar, será sempre essa a ferramenta que teu cérebro vai usar, a saída mental, a sinapse já feita.

Aqui em Toronto, a cada dia vamos a um parque público novo. E os playgrounds são desenhados lindamente. Cada um diferente do outro, cores, texturas e modelos. Bom para o cérebro, exercícios novos para um corpicho pecorrucho. Um dia num dos parques reparei que ela estava insegura de subir num brinquedo alto. Falei para tomar cuidado, plantei o medo, ela quase caiu. Observei mais crianças, mais pais e mães nas mesmas situações, conversei com muitos deles. Comecei a mudar a tática. Dizer outras coisas, mais motivadoras, como: Que brinquedo, grande né, filha. É para criança grande. Tu quer subir devagarinho? Tu acha que consegue? 

“Eu vou tomar com cuidado” ela repete de um jeito único, como se “cuidado” fosse um líquido saboroso e me acalmar fosse parte de sua missão na terra. Ela se desafia e confia. Quando cai, chora e comenta que não tomou cuidado. Digo que cair faz parte do correr e que todos um dia caem. Levantar que é importante. Chorar também é normal.

Sentir é normal. Não vou evitar quedas. Mas vou evitar uma ideia errada da vida, uma noção enganada de que viver é um continuo perfeito e que é preciso desviar do risco custe o que custar. Se custar muito alto, gostaria que ela refletisse.

Fazendo essa menina confiar nas suas habilidades físicas e emocionais, no seu lado bicho, na sua intuição estou certa de passar a verdade pra frente. Ninguém sabe de nada desse mundo, Luna mia. Mas é preciso confiar em si para poder pular, para querer pular.  Isso nós duas já sabemos. 

If you are a parent, open doors to unknown directions to the child so he can explore. Don’t make him afraid of the unknown. Give him support. ” Osho

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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