ano sabatico Europa Infância Primeiros Meses Viagem com filhos

Quem arrisca tem fé e como iniciamos um ano sabático…

Sempre acalentei o sonho de viajar sem rumo, sem malas e sem vela. Uma mini amostragem de como a vida poderia ser se fôssemos livres. Conhecer vários países da Europa sem hora para ir embora. Poder passar meses no Brasil. Viver os dias com o propósito de conviver com quem amava, descobrindo novas terras, desfrutando de momentos afetivos com amigos que viviam distantes. Um sonho purista de viver as simples coisas sem ligar para o futuro ou para o passado. Só o presente é real e é nele que gostaria de estar.

Por que as férias não supriam esse sonho? Pois visitar por cinco dias ou dez dias um lugar me causava dor de não poder desbravar mais…não apenas o local, mas a mim mesma fora daquilo que aprendemos a chamar de vida convencional: casa-trabalho e busca por tempo livre. Visitar por uma tarde uma amiga querida que não via há dez anos me soava estranho. Pensava que se a decisão de morar fora do meu país fosse permanente, então estaria fadada a nunca mais ter tempo de tomar mate com a minha avó e a tia Oraides na casa em que cresci em Alegrete. Não. Um basta imenso calou meu peito. Para que, afinal, vivemos? O mundo já tem regras demais e precisamos inventar nossas próprias regras e segui-las como princípios. Não se deixar dobrar pelas dúvidas alheias. As nossas já são suficientes.

Tom Zé alertou que na vida quem perde o telhado em troca recebe as estrelas. E foi nessa vibração estrelada que saímos de Toronto em busca de aventura. Nada seria como antes…Nunca haveria uma hora ideal. Nunca chega essa hora. O que é importante precisa pular na tua face e se fazer necessário. Achar tempo é mostrar prioridade. Quando abrimos um tempo para alguma coisa estamos dizendo: eu te priorizo. E foi assim, querendo priorizar a singeleza do viver, que achamos tempo para realizar um escape.

Costumavam nos perguntar como conseguimos fazer isso com uma criança pequena. Viver sem certezas por um ano. Se permitir sair da corrida dos ratos…Mas como? Poderia listar as garantias que tínhamos e as dúvidas alucinantes, não irei. Tenho dificuldade em listar coisas práticas e existem muitos sites na nossa era de nômades digitais ensinando caminhos para se fazer isso. Para responder para quem se interessava, só dizia que garantia só se tem da morte. Onde nascemos já sabemos, agora onde iremos morrer, quem poderá dizer que sabe? E iremos morrer. Essa é a garantia.

Se é preciso muito dinheiro? Não sei. O que é preciso mesmo é de muitas pessoas envolvidas, empáticas e conectadas contigo de maneira verdadeira. Quem tem amigos tem tudo e essa é a riqueza maior. Viver aberta para afetos reais me fez conhecer pessoas fantásticas, muitos amigos espalhados pelo mundo, e assim como hospedamos muita gente nas nossas casas, em Toronto, em São Paulo e Porto Alegre, também arrumamos um colchão em vários desses lugares. Um colchão e um abraço.  A economia solidária se faz. Todos os meus amigos terão pão quente saindo do forno se vierem passar uns dias conosco onde quer que estejamos sob o sol desse mundo…Isso é necessário: amor e comida.

Para ser honesta, minha curiosidade sempre morou nessa pergunta: o que é necessário perder e o que vale a pena ganhar nessa jornada? É incrível como o poder da realização dá a dimensão real das coisas. Um ano, meudeusdocéu, o que é um ano? Nada. Pó de estrela. Um vento que passou. E tudo mudou. Se tivéssemos permanecido no antigo endereço pouco teria se alterado externamente e por dentro, quase nada.

Sair da zona de conforto, do conhecido, sacode nosso olhar, faz sair da merdinha, quentinha, gostosinha em que nos metemos. Sem sair dela nunca saberíamos que éramos capazes de ser feliz sem teto próprio. Os filtros jamais serão os mesmos. Nunca mais conseguirei ler a vida do mesmo modo. Experimentei o vento indomável, os medos que tinha de não saber o que viria pela frente. Meu cérebro aprendeu a se acalmar em meio à insegurança, a incerteza e essa ferramenta é eterna.

Vivi a generosidade dos amigos e da família, reaprendi a confiar no universo e na energia criadora que nos protege. E era isso que queria enfrentar, pois quanto mais vivemos todos os lados da existência, mais maduros nos tornamos.

A expectativa da mudança criou raízes em mim. E isso pode ser perigoso. Mas viver é um negócio muito perigoso e nem por isso queremos sair dessa vida. Arriscar é ter fé. Pense nisso.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

0 comentário em “Quem arrisca tem fé e como iniciamos um ano sabático…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: