filosofias

Bike, maternidade e a morte nossa de cada dia…

Planos a longo prazo? A longo prazo estaremos todos mortos. E se tem algo que aprendi nesse novo país é: cada estação, um sopro de vida. A lição é sempre viver dos dias, colecionar momentos. Foi assim no domingo passado…

Saio para pedalar sem rumo pela cidade, dobro na esquina que contém mais árvores, na rua mais bonita. Deixo que por algumas horas não haja previsão, só a beleza me guia. Os bairros vão se sobrepondo e o Kensigton Market se aproxima. A temperatura está ridiculamente ideal, depois de dias de calor escaldante.

Resolvo parar para tomar uma limonada e seguir, mas quando entro no Fika Café, no fundo do pátio tem uma rede e ela está vazia. É hora de mudar de planos e ficar para almoçar. Por lá eu fico algum bom tempo até que uma amiga se junte ao passeio filosófico delirante.
Se essa narrativa fosse escrita antes da maternidade me pegar, poderia soar como algo simples de arranjar a qualquer tempo. Mas depois de me tornar mãe é um prazer potencializado pela possibilidade de desconexão total. Talvez seja isso que o senso comum também se refira ao dizer que filhos nos deixam mais felizes. Só esquecem de lembrar que é porque coisas tão banais que antes fazíamos, hoje se tornam uma saudade de um tempo que parece que nunca mais vai voltar. Pegar a bike pra mim tem esse  gostinho, de voltar a ser quem sempre fui. Ainda mais sendo imigrante, sem família por perto, o que significa ter uma parceria legal com teu companheiro de aventura. Deixar que eles tenham um dia só deles: pai e filha.
E daí penso no amor…e no casamento e na vida prática, aquela que acontece regularmente e quando abrimos os olhos não nos demos conta de viver os simples prazeres, de dar tempos necessários. Lembro do “Dolce far niente” que não tem relação com esse prazer programado que nos acostumamos. Já pensou na diferença entre lazer e entretenimento? Esquecemos de que a energia necessária pra ter a vida desejada é formada pela usina da vontade. Essa usina é movida internamente, quando tomamos as decisões que vão nos encher de gás e amor pela vida. Cada um deve encontrar a sua forma, mas nunca entender que ela pode ser produzida artificialmente. E ao invés de assistir a algo pronto, saímos pra rua de coracões abertos para construir uma história nova.
Já faz tempo que carrego o caderninho comigo para anotar meros diálogos de desconhecidos, tramas que ouço nos cafés…apreciar as diferenças. Formamos uma malha humana tão delicada e profunda. Mas superficialmente somos formigas ocupadas. E pra quê? Que belo circo é esse? Nascemos e somos levados pelo contexto, quando conseguimos decidir, achamos que estamos decidindo de forma autêntica quando na verdade estamos cumprindo lindamente com a expectativa de alguém. Num segundo mágico, a noção de liberdade de escolha pode alterar várias rotas. A gente cresce, ama, ri, sofre, cresce mais e muda…se entretém com as mil coisas que parecem ser as maiores. Ledo engano. A gente vive a procura de um porto seguro, de proteção, de que alguém nos diga, vai lá, vai dar certo. Enquanto essa produção de fé pode partir de dentro. Mas como entrar numa viagem solitária pra saber qual é a voz que fala seus pensamentos? Como se sequer paramos para ficar a sós?
Não precisamos mais de heróis, gurus e teorias. Já temos o suficiente. Seria bom começar a sondar o mistério, enfrentar o vazio, o escuro, a mortalidade, talvez. Estamos à mercê do que não sabemos.

Na volta, no fim, faço o caminho dentro de um cemitério, que aqui serve de pista para bicicletas a procura de trilhas. Ali, rondada de um povo que já se foi, me lembrei que essa correria toda terá fim num dia que não tenho ideia de quão perto está. Só me resta ser menos cagona e investir nos meus sonhos com coragem. E quanto me custa!

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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