filosofias

No Canadá, tua casa, tua vida

Vivendo no Brasil, em geral, com dedicação ao trabalho e com um tempo recorde mínimo de vida pessoal, é natural não refletir muito sobre “quem vai cuidar das crianças?”, “Quem vai lavar toda roupa do mês?”, “Quem vai dar aquela geral na casa depois de uma festinha?”, terceiriza-se ou as mulheres fazem. Sabemos. Mas vivendo fora, a bolachinha é outra. É um tal de olhar pro umbigo e não achar resposta que vou te contar.

A observação do comportamento masculino se acirra quando se vive fora do esquema “Casa-Grande e Senzala”. Local onde a mulher – seja ela quem for- é responsável por todos os reles afazeres domésticos.
Coloco já desse modo para que a questão de gênero não fique sobreposta à questão cultural. Pois é cultural – e não apenas social essa lenda- assim como muita coisa que irrefletidamente nos habituamos a repetir.

Homens e mulheres que migram de países nesse grau de terceirização do Brasil, se vêem numa enrascada. As brigas começam quando a ficha cai. Não será apenas a louça do final de semana, nem a roupa de algum momento, nem algo passageiro. Será todo dia e para sempre. Será algo do qual teus filhos vão se lembrar um dia quando precisarem se espelhar em alguém. Endless circle. Como chamam o ato de fazer o “laundry” por aqui.  E sabe por que tem essas placas bonitinhas pra vender em lojas de decoração extra cool? Por que todos fazem. Assim a banda toca.

Em Roma faça como os romanos” Por que não no Canadá faça como os canadenses? Esses cidadãos criados sob fórmula especial que crescem sabendo que se casados, cuidarão ainda assim da sua vida, terão filhos e sairão mais cedo do trabalho se a criança ficar doente. Esse 50/50 de divisão de responsabilidade tão bonito de se ver. De manhazinha ir para o parque para esposa/mãe/zumbi poder tirar alguns minutos de cochilo. Se tiver dúvida, acorde cedo no sábado e passeie pelo seu bairro. Verá pais e bebês passeando, às vezes mais de uma criança e um só pai. Adulto. Gosto disso. Outro alívio é ouvir comentário de mulheres não acostumadas com a opressão, quando olham para o homem que sai pra buscar pão e flores no domingo e dizem: – que gentil, as meninas devem estar dormindo. E não a surpresa pelo motivo oposto.
Então o que fazer com o maridon super parceiro que se tornou um machista irrustido na hora que a coisa apertou? Quando a ação nos chama, a escolha demonstra nossos valores. Definir regras de conviência sob o mesmo teto imigrante não é simples como parece. Podemos nos reeducar. Todos. Juntos. Que tal? Não são só os homens que precisam entender que a sociedade familiar não vem com estatuto escrito no século dezenove. Nós, mulheres, lindas e modernas, temos que parar com esse papo de “ele me ajuda”. Quando perguntam se meu marido me ajuda com a casa respondo que não. Comento que ele vive nela. Portanto divide igualmente as dores e belezas de ser adulto num país de cidadãos mais igualitários. Quando perguntam se tem alguém fazendo o baby sitting da Luna enquanto estou com amigas num restaurante ou trabalhando depois das 18h, respondo que não. Que está com o pai. Então ele cuida dela pra ti? Não está cuidando dela para mim, está cuidando dela para ele mesmo. Menos baby sitting, mais paternidade. 

Talvez precisemos olhar para essa questão pela primeira vez, com olhos frescos e atentos. É complicado para as mulheres também se livrarem da pecha que precisam cuidar de tudo sozinhas. E é comum as mulheres serem as primeiras a julgar um homem “que faz tudo em casa” ignorando todo o trabalho maçante que sua parceira-irmã de raça faz a cada segundo – ainda mais com filhos. Alegar que faz tudo em casa, pois o marido faria do jeito errado é mais prejudicial do que se imagina. Só reforça o ciclo da reclamação e cansaço. Se isso ocorre com casal, imagine com pessoas normais que se tornaram pais. Pois sim, é exaustivo viver e lutar com o outro morador. O tal do sócio. Meu sogro tem uma teoria que é uma pérola.

O casamento/família é uma sociedade como outra qualquer. Quando um dos sócios ou nenhum dos sócios está presente a sociedade vai pro brejo. E não é? Imaginem uma empresa cujo os sócios sumiram, aparecem apenas para dormir? Ninguém com voz de comando senta, pensa sobre o futuro daquela sociedade. Claro que no final da história dele – que traz uma leitura de outra época- a mulher fica com a “chefia” do prejú.
Não no final da nossa história. Por aqui, aprendemos que dividir não mata ninguém, só fortalece a relação, sobra tempo para cada um cuidar de si e demonstrar afeto através de pequenos atos. Tratando teu par como um adulto razoável fica fácil ter esse tipo de conversa desde o começo do processo migratório. Pois acredite, vai haver o dia que o arrependimento bate por não termos deixado as cartas postas na mesa. Esse arrependimento pode ter cara de cansaço, de desalento, de desinteresse pelo outro. E não precisa. Se na nova vida há novas responsabilidades cotidianas, que sejam divididas por dois. Assim como um casal sem filhos se torna do dia pra noite “pais”, um casal que migra precisa de um tempo para se ajustar e entender onde pisa.

Tanto na paternidade como na imigração podemos criar um bocado de leveza para espantar o demônio das tarefas e desafios da rotina. O problema não são os relacionamentos, são as pessoas envolvidas ali. O problema é o ponto de vista, as expectativas de cada peça dessa engrenagem. A questão não é haver rotina fácil de lidar, mas corações mais abertos para se comunicar. A verdade se sobrepondo aos jogos da vida. Da valsa dos noivos ao vôo rumo ao desconhecido, da louça às fraldas, uma jornada se constrói.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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