-Mãe, deixa eu ver sua teta?
-Que isso minha filha, não se fala teta! Se fala seio, peito. Que horror, quem tem teta é vaca! De onde tirou isso?
– A tia Eliana fala!

Assim foi o diálogo entre minha sobrinha de seis anos e minha cunhada. Sim minha gente, eu chamo a coisa de teta. Faz tempo já e nem acho indelicado, acostumei. Sabe como é, fui criada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Lá, pra quem não sabe, a terminologia equina e bovina é bem aceita no vocabulário urbano. Adotei na infância e hoje mantenho com bastante orgulho, ainda que na maioria das vezes tenha que me explicar, pois nem todo mundo compreende a rica gíria gaudéria. Pior foi meu pai ao comentar sobre a Luna bebezinha: Ela é bem guachinha! (vai ver se o Mr google resolve essa pra ti! Caso não ache, procure um veterinário…talvez tenha uma pista)

Mas, voltando à teta. Desmamei!!! Faz um mês. Nem lembrava mais o que era ser uma pessoas assim, do tipo normal.

– A gente vira uma teta, Eliana, é natural…(minha irmã alertando a grávida poliana aqui). E eu só pensava: empoderada, dona de divinas tetas! E nada melhor se precisa de um tempo pra pensar. Terá todo tempo do mundo.

Amamento a Luna desde o primeiro segundo de vida no planeta azul. Foram 15 meses ininterruptos e pasmem, nunca tirei leite pra deixar pra bezerrinha mamar na mamadeira. Lembro da minha mãe, me dando o aparelho de tirar leite e dizendo que seria bom pra mim tirar de vez em quando e sair solita, simplesmente. Mas mãe, eu não tirava o leite porque era mais trabalhoso pra mim. Muito mais fácil dar e pronto. Levava a bebezita pra todo lado, como uma índia feliz e exausta.

A Luna teve tanta coisinha, como refluxo, cólica…que eu era um ser ou virado em teta ou virado em zumbi. Amamentava e ainda tinha que ficar horas com ela no colo, porque estava sozinha sozinha de marré de si e a cria podia engasgar com tanto que regurgitava. Era como virar um litro de leite nas suas belas costas a cada 4h. E essa ainda não era a parte mais pesada da coisa. Mas deixa pra lá…dizem que um dia a gente esquece e pimba: tem outro!

Não sei como tudo aconteceu. Estava bêbada de hormônio todo esse tempo, não falava por mim, não me responsabilizo por nada que fiz ou disse nesse estado. Agora, olhando para trás, parece que não fui eu…nunca imaginei que teria paciência, que seria capaz de me doar tanto, de esquecer de mim, de querer viver tudo intensamente. Mas também, quanta pretensão julgar meu temperamento antes de passar pela maior revolução da vida. Como saber do que a gente é capaz até viver o olho do furacão?

Conseguir amamentar quando se quer amamentar é um prazer imenso, uma trabalheira na mesma intensidade. Tudo na vida tem seu preço, uma mulher que amamenta vive as dores e as delícias da maternidade de uma forma quase delirante. O bebê mama não só o teu leite, ele mama toda tua transformação, ele mama tua aprendizagem, tua nova tolerância. O ato de amamentar é bom para o bebê por razões já conhecidas, mas é ainda mais fantástico para mulher que quer ver o rebento crescer por ato próprio, pessoal e intransferível.

Com um ano de idade ela mamou o leite de uma outra teta, dessa vez, orgânico no vidro, direto da fazenda. A partir de então, as mamadeiras se tornaram uma bênção. E ao mesmo tempo, começou a me bater uma angústia de pensar no final de um ciclo.

De uma maneira bem boba, comecei a me forçar a desmamar. Tinha medo daquelas cenas da criança maiorzinha quase arrancando a blusa da mãe. Precisava escapar dessa! Queria uma saída imediata, uma saída que não me causasse sofrimento. Era externo demais, artificial. Por óbvio, não funcionou. A coisa precisa acontecer naturalmente. Tudo é um processo. Não era a hora da Luna, muito menos a minha. Um mês se passou e tudo mudou. Algo clicou em mim. E fui fazendo a transição, tentando, tentando…

Assimilei o que ‘um processo‘ significa. Como um dia assimilei o porquê da palavra ‘trabalho de parto’. Não é de soco, de cara, de vez. A maternidade é uma sábia mestra. Foi só quando estava pronta que consegui não sofrer mais com as tentativas de desmame. E tudo fluiu belo e sem traumas. O último dia que ela mamou eu sabia que seria a última vez…foi emocionante refletir sobre tudo que vivemos grudadas. Foi lindo viver como mamífero puro um ano inteiro. Nunca mais teria essa chance. Os milhões de minutos que passei entregue ao ato de amar devem ter criado um saldo fantástico no meu sistema imunológico. Boa recompensa!

Minha irmã tinha razão, virei uma teta e desvirei. E se teve algo que aprendi foi que é possível viver uma mesma situação de mil formas, mas a melhor forma – não a menos trabalhosa- é aquela que a gente acredita ser a cabível, aquela que preenche, satisfaz. E virar uma escrava da teta me satisfez. Ser mãe é ser um pouco escrava, mas uma escrava diferente daquela que existia antes do bebê nascer. Escrava de desejos próprios, agora sou escrava também de desejos alheios. Mas um alheio bem próximo, bem pequeno e bochechudo. E ainda dizem que melhora. Missão cumprida! Finito questo! Well done! Uma sardinha pro flipper! Feito o carreto! Outro ciclo se abre para um dia se encerrar.

Gandhi disse que ação expressa prioridade. E prioridade só não é tudo na vida porque o amor é que é.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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