filosofias

Que horas ela volta? Tem que assistir!!

Assisti no avião vindo para Toronto há duas semanas. “Que horas ela volta?” é um filme da Ana Muylaert estrelado por Regina Casé na personagem da Val, uma empregada doméstica que vai do nordeste para São Paulo trabalhar por 13 anos com uma família no Morumbi e cria o filho da patroa até que aparece sua filha, já crescida vinda do Recife. Jéssica, a filha da Val, foi criada por uma amiga que ficou na sua terra natal. Ela aparece em São Paulo para prestar vestibular de arquitetura na USP. O roteiro é brilhante, cada diálogo elegante e sincero expõe as tripas de um sistema escravocrata enraigado em nossas origens. Um sistema que não cabe mais no mundo contemporâneo e  insistimos em mantê-lo, pois afinal não sabemos viver de outro modo. Mas era preciso expôr em formato digital toda essa complexa liga que une e desune o país.

O filme não faz alarde. Ele comove delicadamente. Ajuda a refletir sobre o papel de mãe, já que o próprio título se refere ao ponto de vista infantil, daqueles que ficam à espera de suas mães não interessa em que classe social possam ter nascido. O menino rico foi abraçado apenas pela babá, a menina pobre, filha da babá, não foi abraçada por esta, mas por outra que a cuidava.

Jéssica vai para a cidade grande levar um novo jeito de ver a realidade ao redor. Chega quebrando parâmetros e incomodando muito. “O Brasil está mesmo mudado”, diz a dona da casa grande no Morumbi. Uma menina nordestina que quer passar no vestibular da FAU, que sabe projetar, que lê e tem consciência do seu valor. Numa mesma história, várias são abordadas. A importância da presença da mãe como um papel sagrado e intransferível que um dia cobrará seu preço, a dificuldade de enxergarmos com clareza e colocarmos em cheque a realidade em que estamos inseridos…é inspirador. Se não viu, veja e me conte.
Impossível não se identificar com algum dos personagens. Lembrei muito da tia Oraide, a Val lá de casa. Pessoa incansável e forte que nos ajudou a criar. Todos somos um pouco do Fabinho, menino da classe média que abraça com amor a pessoa que deu seu tempo carinhoso para olhar por sua infância. Ao mesmo tempo que todos somos culpados pela manutenção desse sistema, somos todos um pouco vítimas dele. E assim seguiremos se não pararmos pra mudar a direção. Por isso a complexidade do tema. O que mais me chocou na entrevista da diretora é o comentário dos europeus ao final de cada sessão: MAS ISSO AINDA EXISTE? VERDADE? COMO?
O filme é feito do roteiro. E roteiro é história, é tudo que precisamos. Um alívio orgulhoso invade meu peito às 5h da madrugada em pleno vôo. O Brasil ainda faz cinema e essa é a boa notícia do ano. Parece que foi indicado ao Oscar de Melhor filme estrangeiro, mas pra diretora mais interessa são as cartas que recebe do público. Clica aqui e veja com teus olhos a razão da minha empolgação.

Um salve à Regina Casé e todo elenco. Um agradecimento todo especial à corajosa Anna. Ela que abriu a porta dos fundos e vai ajudar encerrar muitos debates que há tempos estamos prorrogando. Talvez não seja fácil para o Brasil se ver na tela assim, tão exposto. Mas vai ser bom.

Ps.: Amo estudar roteiros. Observe no filme quantas vezes e como a palavra “mãe” acontece.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

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