ano sabatico Europa filosofias Infância Viagem com filhos

Sinal verde pra quem tem coragem!

A frase que mais ouvi no último ano foi: “Que coragem, hein moça?! Quanto desapego.” Se referiam ao fato de termos fechado nossa vida no Canadá para rodar um pouco com uma filhota de 1 ano e meio e depois, muito provavelmetne, voltar pra lá. Viajar. Ver. Conhecer. Conviver. Reconhecer. Abraçar. Rir. Sentir. Se emocionar.

Mas era desse “jogar-se no mar…atirar-se sem pára-quedas” que a surpresa se direcionava. Coragem!Confesso que das primeiras vezes que ouvi, me magoei. Poxa, cada um com suas forças, sonhos e fraquezas. E meu fraco é crer, sincera e levianamente, que mereço viver as pequenas loucuras que a passagem do tempo plantou em minha alma. Uma alma velha, também concordo. Mas velha o bastante para saber que a vida é um sopro e piscou passou. E o pior, de verdade, é que esse negócio da curteza ou comprideza do destino não me move tanto, me pega mais é pensar na força transformadora dos momentos bem pequenos e bem vividos. A coleção deles faz um vendaval na floresta. Só não sabe sobre o vento na cara e o frio na barriga quem nunca se atirou. Coragem muita é sequer enfrentar um medinho bobo de nunca se perder. Mania de querer estar sempre na linha do trem.
Então é assim, sobre a morte não tive coragem de imaginar: onde, quanto, porquê e com quem…ou seria sozinha, como parir e nascer? Mas sobre a vida, deixa eu te contar, se você conseguir imaginar com um grau de detalhe, som, cheiro, imagem e sentido, com culpa ou sem culpa, te aposto que o universo dá uma voltinha e te recompensa pela audácia. Sonhar não está assim numa escalada alucinante como o dólar.  Nem pense em não sonhar porque acha que os céus estão cheios de pedidos. Não estão. Lotado é de reclamação. Ouvi dizer que as petições dos sonhos são tratadas com prioridade.
Mas falava de viagem, de fechamento e de desapego. E até agora não entendi do que mesmo que me desapeguei. Se sigo é para tentar decifrar.
Há quase um ano quando transformamos uma notícia de demissão em “é  hora de realizar um sonho“, a coisa não foi toda planejada. Não sabíamos do que estaríamos abrindo mão, se o plano fosse por água baixo caso a segunda garrafa de vinho não fosse aberta. Amém, abrimos a segunda garrafa de vinho na sequência e nos empolgamos enquanto nossa filha dormia o sono dos ‘justinhos’.
A idéia parecia simples: devolvemos o apartamento em Toronto, vendemos tudo (menos livros, casacos e vitrola), temos como garantia a aplicação da documentação na imigração canadense que dentro de dez meses nos dará o cartão de residência e podemos voltar e trabalhar novamente assim que decidirmos. Tinhamos família, amigos, um apartamento onde parar em caso de tudo ir pro brejo muito rápido, tínhamos uma garantia financeira que logo seria líquida, tínhamos uma filha faceira e adaptável como o sol da manhã. Tínhamos sempre nossa força criativa para transformar más em boas notícias, letras e fotografias em algum dinheiro e jogo de cintura para marcar tudo de última hora e a coisa correr como se tivesse sido longamente planejada. Isso sem fazer a tal bebezinha nem chorar, nem ter um choque de tanta movimentação. Suavidade, uma prioridade. Um talento. Como nunca tive para escola ou ballet clássico.
Assim foi. Uma decisão que se colou na outra e tudo foi ficando mais leve na medida em que íamos nos livrando das coisas. Das benditas coisas das quais deveríamos ter algum apego. E foi até divertido vender objetos e fazer dinheiro vivo depois de quase 5 anos de uso. De nosso, importava, ter um ao outro. Um amor que bate em três pontas e volta. Essa era nossa maior garantia. E não era a primeira vez. Fizemos um processo semelhante quando deixamos nossa vida ‘garantida’ em São Paulo e nos atiramos a viver num país cuja língua e cultura não eram minha maior paixão. E isso também se transformou. Em pouco tempo a gente aprende que tudo que se afirma sem ter vivência é ralo, sem consistência. Logo se aprende que errar faz parte do processo e que nunca erramos na parte que achávamos que éramos fracos e sim na parte que não fomos humildes ou sinceros com a gente mesmo. Neste caso, substimei completamente a força do primeiro passo para alteração da rota toda.
Dessa vez, já tínhamos essa experiência. Já sabíamos que o apelo do desapego era pó. Por que me apegar a um teto se poderia ter muitos céus diferentes por pelo menos um tempo dentro de uma vida inteira. E me choquei de novo ao perceber que vinha dos jovens essa percepção de que estavam presos mais do que todos. Arriscar, se aventurar, realizar qualquer pequena travessura não cai muito bem para o mundo sério onde estamos metidos e no qual muitos acreditam com fé e algumas pílulas de ansiolítico. Não posso esconder, nunca tive essa fé. Mas tenho outra. A fé no sagrado momento que imaginariamente soltamos nosso corpo no vazio, na hora que damos as mãos ao desconhecido, que nos rendemos, que nos entregamos de olhos fechados para as próximas cenas que estão reservadas desde muitas eras. Só você pode realizar aquilo que sonha. Soltei…
Se entregar dói e apavora. Perdemos o controle totalmente. Mas não seria esse um exercício divino? Por que só é aceito aquele que se entrega para o cirurgião, que se deixa anestesiar, bloquear sentidos, esquecer? Por que não pensar no fluir da vida como um maestro de uma orquestra que nós mal conseguimos ouvir. E simplesmente confiar.
Eis um tanto do final desta história: hoje sabemos do que abriríamos mão não fosse essa tal coragem. Teria aberto mão da convivência direta, olho no olho, tempo no tempo, de pessoas que amo muito e fazem grande diferença na minha jornada. Foram dez meses de presença. Dez meses para acordar com o sol na cortina ou com o despertador avisando que o trem para Paris estava próximo. Dez meses sem deixar a pressa entrar, a angústia se instalar, a ansiedade permanecer. Dez meses sem questionar as razões para o ócio criativo. Simplesmente criar. Dez meses de conversas com amigas de infância, de papos regados a vinhos e cafés pelo mundo a fora. Morar ou não morar fora do Brasil para sempre? Ter ou não ter mais filhos? Virar executiva-poderosa ou ser feliz? Casar ou comprar uma bicicleta? São Paulo ou Londres? Dez meses de dúvidas divididas, choros e risos arregalados. Dez meses de troca de fraldas em lugares inusitados, de bundinha de bebê no Louvre, de xixi pelas calçadas de Berlin, de sonecas pelas estradinhas da Provence, de gargalhadas na grama ao som do Big Ben e de frutinhas em Noting Hill. Dez meses de pé na estrada, no mar, seja de barco, carro, trem, avião, cavalo. Dez meses de bolos, comidinhas feitas com amor, dedicação e surpresas. Dez meses dedicados a pessoas, cheio de declarações emotivas para nos provar que viver é se relacionar e se aprende demais quando se está à mercê das lições escondidas. Dez meses para dar tempo de pular na cama mãe, abraçar o pai, tomar mate com a vó, deixá-los ser avós e bisavós sem dia para acabar. Dez meses de uma Luna bebê a uma Luna menina, falante e amável. Muita teoria no chão, muito dito popular na cabeceira. Dez meses para saber que só o que vale é o amor que a gente tem para compartilhar.
O saldo desse período dos quais o que menos importava era o futuro distante e sim o presente mais próximo é de pura gratidão aos anjos corajosos que sopraram no meu ouvido e me fizeram virar o mapa do mundo adesivado de ponta cabeça, logo cinco minutos antes de receber a notícia que nos libertaria para aventura.  Anjos que mudaram não só a direção como o modo que dirijo o trem da minha vida. Agora que sei o que perderia se tivesse tido medo de fechar a porta, agora temo. Temo naquele piscar de olhos de quem não acredita que já passou o que poderia nunca ter acontecido. Aquele diamente de segundo no qual não titubeou e decidiu. O indecifrável pane de superação do medo. É sobre essa coragem que tenho mais receio de me desapegar. Pois é fácil entender que gente se apega facilmente a quem  teve a ousadia de nos salvar.
Agradecida, Senhora Pequena Coragem diante de medonhos medos, volte e se instale para sempre.

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

1 comentário em “Sinal verde pra quem tem coragem!

  1. Um texto muito forte, libertador… complexo e que desmistifica a arte de viver e ser feliz! Adorei, parabéns!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: