filosofias

Gavetinha do nada

– Tá tudo bem?
– Tá, por quê?
– Você está em silêncio há um tempo.
– E daí?
– E daí que você mesma já me explicou que quando uma mulher fica em silêncio isso não significa que está tudo bem, significa que ela tem mil coisas a dizer e não está dizendo, significa que está cheia de minhocas prateadas circulando na cabeça.
– Ah é…eu disse, é? Como eu te dou dicas sobre o funcionamento da alma feminina.
– Cinismo..humm…Bom, mas e quanto a ti. Fala, o que te acontece?
– Nada não.
– Nunca é nada.
– Quando tu fica quieto eu não te encho o saco.
– Quando eu fico quieto é porque está tudo bem. E anda logo, fala…

Belo diálogo. Já aconteceu contigo, cara amiga? Os homens são seres focados, trabalham por assuntos, resolvem problemas pragmaticamente, possuem gavetas organizadas, jamais conectadas. Uma delas é a gavetinha do nada, lugar onde vão parar quando estão mudos, com cara de paisagem.  Já as mulheres possuem muitas gavetas, mas quando elas se abrem, tudo está  ligado e interligado, de forma que é impossível dissociar cada coisa. As mulheres não entendem como os homens são incapazes de juntar dois temas por mera associação de lembrança ou sentimento, por isso e por não crerem na existência da tal gaveta vazia, elas não cansam de perguntar:

– Amor, em que tá pensando? Nada. Responde o amor.
– Não tem como não estar pensando em nada, pensa ela.

E assim caminha a humanidade em termos de incomunicabilidade entre os gêneros. Ocorre que a alma feminina envolvida neste diálogo tem razão quando diz que o silêncio de uma mulher não deve ser interpretado como satisfação tácita. Não, caros amigos, quando uma mulher fica por muito tempo em silêncio é porque ela está gritando por dentro…e vai gritar para fora, pode esperar mais alguns minutos. Melhor perguntar, com carinho e paciência real para ouvir. Mas os homens não entendem, vão logo achando que está tudo bem ou, quando ouvem, vão logo querendo solucionar o caso com conselhos simplistas. Então fica a dica: nunca é nada e nunca é simples. Respeite a complexidade da natureza feminina. Não precisa entender, basta mostrar consideração, demonstrar atenção e cuidado. Ela vai se satisfazer com isso. Por quê? Porque as mulheres não esperam muito da natureza masculina. Elas são realistas, por diferente que isso pareça. Muitas parecem românticas, mas se perguntadas diretamente sobre essa ilusão, logo vão responder que não querem muito do parceiro, além de…bom, daí vem uma listinha bem simplória.
Lembro da Marilia Gabriela comentando algo assim: “Ele é gentil? Sabe escolher bons queijos e vinhos? Então fique feliz, você não terá muito mais de um homem.” Escolher queijos e vinhos é importante para ela. Faça a sua pergunta usando critérios pessoais e aprenda a ficar feliz com o que tem.

Certa vez, estava na porta da cozinha da casa da minha irmã, cada qual encostada numa parede observando os homens na sala olhando um DVD de música e tomando cerveja. Eles conversavam numa boa. Tudo parecia bem. Ela disse, sabiamente: Olha lá, tá vendo aqueles dois? Eles estão bebendo cerveja e ouvindo música. Eles estão ali, curtindo o momento. Eles não estão confabulando sobre relacionamentos mal-sucedidos, não estão liberando radicais livres nem pensando em nada que esteja fora daquele ambiente. Vê! Os homens são criaturas simples.
Mal sabe minha irmã que esse foi mais um ensinamento que ela, sem intenção, me transmitiu. A partir desse dia, não que eu tenha virado uma ativista do direito ao silêncio dos rapazes, mas alguma coisa em mim mudou. Passei a tolerar e até me colocar no lugar dos pobres infelizes que muitas vezes não captam, não tem a ideia do que estamos tentando dizer. E sabe por quê? Por que não dizemos claramente. Nem não claramente. Simplesmente não somos acostumadas a falar o que queremos usando a palavra. A gente quer ser ‘presumida’. Faz parte da mentalidade de princesa imaginar que todos ao redor devem pressupor o que desejamos. Mas os companheiros da espécie não são os mais aptos a adivinhações. E como diria minha mãe quando eu era criança: quando um não quer, dois não brigam. Acredite nisso e tente ser tolerante.

Tentar falar o que sente é duro porque antes de expor os sentimentos a alguém, precisamos ser honestos e corajosos frente ao espelho. Coragem para se atrever a desvendar as próprias fraquezas e honestidade para entender que sem encará-las de frente, elas continuarão ali, como uma almofada gigante no meio da sala. E isso não vale apenas para relacionamento amoroso, vale para amizades e outros tipos de relação mais superficial. Antes de cobrar entendimento pergunte-se o que fez para que o outro compreendesse teu ponto de vista. Não se proteger excessivamente ajuda bastante na hora de desvendar os porquês das pedras que pipocam nas relações entre pessoas. A receita sempre é simples: falar o que sente sem fazer jogos e não projetar angústia nos outros. Mas como nos custa!

Quando Luna nasceu eu já era passarinha migrante retirante, morando em Toronto e com o coração solto no mundo. Vivo querendo dar um tombo na rotina e sair voando por ai, sem rumo. Um dia me defini como gaúcha, colorada escorpiana e advogada. Hoje não tenho mais pretensões definidoras. Já entendi que somos transformações pesáveis. Sou um pouco escritora, fotógrafa amadora, inquieta faceira e viajante por qualidade de alma. Ser livre, pelo menos acreditar que tenho escolha é o que me faz viver e crer que a vida é boa. Estou aqui online, mas sou quase analógica. Movida a vinho, lápis, livro e caderninho. Chamego e leveza são palavras que me abraçam. Abri esse canal pra conversar contigo. Quero saber de ti...o que te move, corazon?

0 comentário em “Gavetinha do nada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: